Cultura, folclore e globalização

Esse foi o meu trabalho de Produções Artísticas:

Em 1963, Bob Dylan fez o que ninguém até então tivera a ousadia de fazer: usar a guitarra elétrica em um festival de folk. A recepção, como ele próprio esperava, não foi das melhores. Na época, o cenário musical era extremamente fragmentado: havia o folk, o blues, o country, e começava a surgir a junção dos dois últimos, o rock’n’roll, gênero até então considerado impuro por grande parte da audiência. Tal atitude não só mudou o rumo da carreira de Dylan como o da história da música pop. Simbolicamente, é possível dizer que ele uniu os dois polos (a tradição do folk e a inovação que a guitarra elétrica trazia), até então excludentes. A essência da música popestava formada.

Em 1967, no Brasil, Elis Regina liderou um movimento contra “as guitarras elétricas e a influência da música norte-americana”. Embora o Tropicalismo viesse depois derrubar todas essas limitações bobas, a imagem final é de um fascismo horrendo. A semelhança com o evento de 1963 não é ocasional. As duas ocorrências marcam uma mudança de postura e paradigma.

A cultura, enquanto forma de síntese humana, vive disso. Expressões fascistas são respondidas com transgressões e transgressões são respondidas com fascismo. É assim o modus operandi do zeitgeist.

Há aqui, portanto, um ponto de discussão interessantíssimo: a mesma linha que divide a tradição da inovação e limita o fascismo da aceitação também governa a nossa suscetibilidade em relação à mudança. Há uma bela dose de determinismo empregado aqui. Nossas reações mais apocalípticas são geradas a partir dos nossos pensamentos pressupostos.

Mas o que acontece quando nos tornamos passivos, ou melhor, vamos de um extremo ao outro? Como a própria História nos mostra, é fácil acomodar-se em ideias.

Estou lendo dois livros ao mesmo tempo (isso não é tão ruim e desorganizado quanto parece). Eles são Ellen Willis On Rock Music, uma coleção de artigos de Ellen Willis, a primeira crítica de música popular do New Yorker, que escreveu durante 1965 e 1972 para a revista em questão, e Retromania, de Simon Reynolds, também crítico musical e jornalista cultural, que discute nossa obsessão com o passado da cultura pop, ou cultura popular, como quiser. Lê-los ao mesmo tempo é maravilhoso, não só porque eles tratam da mesma ideia de um ângulo diferente, mas porque a abordagem é diferente.

A ideia de que estamos obcecados c0m o nosso próprio passado cultural não só me atrai como uma grande tese a ser trabalhada como também me assusta. Já Ellen Willis On Rock Music trata da cultura da virada da década de sessenta para a década de setenta (ela faz referências brilhantes a Woodstock, Janis Joplin, Rolling Stones, vai direto ao ponto em relação aos Beatles e é simpatizante do feminismo). E eu não consigo evitar pensar que a escrita de Willis é tão aclamada porque é uma espécie de cápsula do tempo (uma abordagem cínica, cética e muitas vezes sociológica) de sua era. Mas trazendo para nossos dias, mais de quarenta anos depois, os textos ainda são relevantes. Muito relevantes. Você provavelmente irá se irritar com o que Willis tem a dizer sobre a soul music dos anos sessenta e setenta e se irritar muitocom as críticas recheadas de ironia (mas sempre objetivas) a Aretha Franklin (“ela canta a última canção como se não conseguisse esperar para sair do palco”, ela diz em uma determinada parte do livro) e Otis Redding. Ela estava lá.

De 1960 para 2011, muito mudou. Não só a cultura em si, mas a forma com que usufruímos dela, ou falamos dela. Não é possível mais ter o desembaraço de Ellen Willis sem soar como uma completa hippie. Talvez tanta postura política demasiadamente cética tenha estragado uma geração inteira de críticos culturais.

A ideia central de Reynolds (a de que nós estamos cinicamente reciclando ideias, da música às artes plásticas, passando pelo cinema e teatro) encontra ressonância na escrita de Willis a partir do momento em que se começa a considerá-la não um artefato histórico meramente interessante (ou como Nitsuh Abebe descreve com o que eu chamaria de leve ironia, “um prazer para ler”), nem como um estudo de uma época bastante específica, mas como uma manifestação mais complexa de zeitgeist – a ironia da escrita de Willis é tão real quanto a autodepreciação e deboche dos hippies e de Woodstock.

Todas essas afirmações (e algumas dúvidas em relação ao próximo passo que devemos dar para sair desse loop) se relacionam, de forma bastante bizarra, com o tema principal desse artigo/trabalho/pesquisa: o folclore (ou que deveria ser, convenhamos), a nossa forma mais primitiva de expressão cultural.

A parte mais sociológica do “estudo” de Willis e o enfoque de Reynolds poderia ser aplicada a “Mistérios da Meia-Noite” de Zé Ramalho, digamos, mas pode ser mais estruturada se exemplificarmos o que fizemos aula passada – contos, lendas e algumas (só algumas…) alegações pseudocientíficas do que é ou não paranormal.

Se considerarmos o folclore não somente uma forma de expressão cultural, mas também uma fonte de conhecimento mais estabelecido em relação a um povo ou nação, a análise de Reynolds ganha mais sentido (essa asserção não é tão óbvia quanto parece), ou melhor, faz sentido.

A globalização tornou o folclore desinteressante aos nossos olhos, em troca ao acesso a uma cultura pronta massificada e a sua ferramenta principal mais significativa – a internet. Aparentemente, essa reciclagem de ideias – ou o fato de algumas pessoas se apegarem tanto aos regionalismos culturais como uma forma legítima de expressão cultural – é típica da globalização. Esse acesso a um número quase infinito de informações nos tornou preguiçosos culturais.

Permanecer no passado é ruim, mas olhar para ele com perspicácia e com dominância do presente (pode soar clichê, e com um olhar crítico para o futuro) é necessário. Na prática, não é tão simples. As relações humanas são muito mais complexas do que o determinismo pode supor. Mas o folclore – uma fonte inesgotável de conhecimento popular – está aí para isso. Nós só precisamos parar de olhá-lo com olhos nostálgicos. E começar a vê-lo como um ato transgressor, uma inspiração para o futuro. Que nós sejamos como Bob Dylan, e não Elis Regina.

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