St. Vincent | “Strange Mercy”

Eu, sinceramente, tento entender o que se passa na cabeça dessas cantoras e compositoras atuais. É uma combinação de surrealismo pós-moderno com a visão caleidoscópica de uma Joanna Newsom (Ys, é, você gostando ou não, um dos álbuns mais influentes da década passada nesse quesito). Annie Clark, a St. Vincent, se encaixa bem nessa descrição, e Strange Mercy, seu novo álbum, serve de apoio para tal sentença.

Strange Mercy é um disco de pop contemporâneo simplesmente bizarro. Bizarro em relação às próprias escolhas que Annie Clark faz. O disco, por si só, soa como um thriller psicológico denso e macabro. Mas o principal artifício que a St. Vincent é a ironia sonora, algo que muitos não vão perceber, e que expõe as frustrações da compositora. A incrível Cruel é o exemplo mais claro disso, onde uma batida disco se deixa levar por versos agonizantes e uma guitarra desajeitada. O propósito do disco é, portanto, retratar Annie Clark como uma típica heroína moderna.

O surrealismo do álbum vai da atmosfera um tanto nefasta quanto às letras crípticas (ouça Chloe In The Afternoon). E é nesse ambiente ambiente surreal que ela consegue ser incrivelmente sincera sobre sexo, amor e vida. O título lhe cai perfeitamente bem (Strange Mercy é algo como “estranha misericórdia”, em português), porque o álbum soa como uma retratação entre o que ela é (“I had good timnes with some bad guys”, ela canta em “Cheerleader”) e o que ela quer ser (um projeto de mulher moderna, “Me abra toda, senhor cirurgião”, ela canta em “Surgeon”). Strange Mercy é até certo ponto uma piada interna, e não há problema algum nisso.

O disco tem lá seus limites. Embora tudo o que foi dito vá encantar muita gente, St. Vincent não consegue se libertar do estigma de toda compositora moderna que quer soar como uma versão mais badass e confusa do que a Liz Phair nos momentos mais felizes de Exile In Guyville (contraditório, não?): o inevitável choque de realidades e expectativas (o mesmo mal que também acomete o novo do Girls, só que em um nível mais adulto) que nem sempre encontram solução e acabam por soar como um filme PG-13 editado para crianças (já viu algo assim?).

O esforço, porém, é válido. Embora Strange Mercy seja reconhecido por seus contos às vezes adultos porém maquiados, o álbum me diverte mais quando esqueço de tudo isso e eu passo a enxergar Annie Clark como a heroína geek que cria trilhas sonoras para sonhos pervertidos e descontrolados. Strange Mercy é um dos discos mais acidentalmente bizarros do ano, e ela nem sabe disso.

Nota: 8,1/10

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s