M.I.A | “Kala” (2007)

 

O ano de 2007 foi confuso. Os Radiohead trabalhavam em mais uma obra-prima, o LCD Soundsystem criava mais um hino (“All My Friends”, por sinal, é uma das melhores canções desse século), o Animal Collective criava o antecessor de sua magnum opus, e Panda Bear criava a base de um som que até hoje tem seus seguidores. Sim, foi um ano confuso.

Para aqueles que ainda não acreditam que a nossa noção de música pop está se estreitando, ouvir Kala teve lá seu impacto.

Kala funciona porque trabalha numa tremenda inversão de valores, tanto musical quanto política. M.I.A. utiliza os clichês sonoros (Bollywood em “Jimmy”, por exemplo) para solidificar  o seu “conhecimento” sobre globalização, terceiro mundo, África e tudo mais. E é por isso que a tese do disco ainda soa tão atual: Kala não é só sobre política assim como Kid A não é só sobre alienação. É caótico mas controlado, com uma comentarista social que dispensa credencias e – de novo! – conhecimento (“Credentials are boring”, ela diz na óbiva “Bird Flu”)

Ela foi além do grime e new rave, impondo uma visão. Na verdade, o que torna o disco interessante é a própria personalidade de M.I.A, que não considera nada verdadeiramente sagrado dentro da música pop.

Claro, por tudo isso ela foi chamada de oportunista (anos depois o New York Times iria acabar com sua imagem pública e o Vampire Weekend escreveria um verso só para ela). Mas engana-se quem pensa que essa linha de raciocínio é válida, porque Kala é um dos discos mais despretensiosos da última década. Como disse Xgau na época, “the danger is everywhere”.

Se o disco diz algo sobre nossa geração, é a expressão quase que sarcástica do pop globalizado, que se revolta contra a guerra (“Paper Planes”), capitalismo e paranoia.

Falando em “Paper Planes”, tal canção atingiu as paradas (alcançou o quarto lugar na Billboard Hot 100, feito um tanto raro para uma artista tão incomum) de forma tão profética quanto sarcástica. Os samples (armas e dinheiro!, Iraque e Afeganistão!), os assassinatos e as falsificações: a genialidade estava ali.

Embora seja preferível analisar Kala em um contexto histórico e próprio de sua época (grandes álbuns são feitos disso, não?), Kala ainda sobrevive e já tem seu legado porque é interessantíssimo musicalmente. A rave de “XR2”, o afropop de “Bamboo Banga”, o sample do The Clash em “Paper Planes”. O álbum teve um timing perfeito, quando a retórica da “globaboseira” começava a tomar proporções preocupantes, disso não há dúvida (e não se fazia nada de realmente intrigante a respeito disso no mundo da música, convenhamos).

Embora gente como Simon Reynolds (autor de Retromania) queira que você acredite que a década passada não passou de uma fotocópia do que veio antes, houve sim discos que propuseram uma nova forma de sintetizar nossos desejos e vontades (e pop não é isso?). Kala foi, definitivamente, um desses álbuns.

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