Por aí…

Brian Eno: Ei, cara, como vai? Precisamos acertar logo esses detalhes do novo disco.
Chris Martin: Tudo bem. É verdade, os caras da gravadora ligaram ontem pra mim pedindo informações de como o projeto estava indo.
Brian: E o que você disse?
Chris: Bem, eu disse que ia conversar com você e o resto da banda, perguntar o que eles queriam fazer, tipo, marcar uma reunião, essas coisas. Eles não gostaram do atraso, mas fazer o que, né? Precisamos agilizar essas coisas agora.
Brian: Então, o que você quer fazer? Quais são as suas ideias?
Chris: Bem, cara, eu queria ainda mais ambição. Acho que a gente ainda não alcançou o nosso verdadeiro patamar.
Brian: Como assim, cara, você não acha que exageramos um pouco em Viva La Vida?
Chris: Nem um pouco, Viva La Vida é fichinha perto do que eu tô querendo. Quero tipo um interlude do estilo de “Treefingers”, do Radiohead de Kid A, pra abrir o disco. Claro, vai ter só um minuto de duração porque nossos fãs não tem paciência pra digerir mais de três minutos de música ambiente. Também quero algumas faixas bem acústicas, sabe, estilo The Bends. O que você acha?
Brian: Legal, sendo que “Treefingers” é praticamente uma homenagem que eles fizeram a mim.
Chris: Sério? Não sabia…
Brian: Como não? Bem, deixa pra lá essas conversas… Alguma outra ideia?
Chris: Adoraria também um dueto com alguma diva atual do top 10 da Billboard. Se não rolar com a Katy Perry – eu adoro “Last Friday Night” – quero uma participação com a RiRi.
Brian: Claro, isso o pessoal da gravadora arruma fácil. E o nome do disco, vocês tem alguma ideia?
Chris: Mylo Xyloto.
Brian: Isso é por acaso grego para Miley Cyrus?
Chris: Exato. Minha filha adora a Miley Cyrus.
E o resto da história vocês já, infelizmente, conhecem.

Nicola Roberts – “Lucky Day”

8/10

Quando Nicola Roberts lançou sua incrível “Beat Of My Drum” no começo do ano (agora de longe uma das minhas favoritas de 2011), demorei um pouco para começar a entender o motivo de minha adoração. Já com “Lucky Day” a história é outra: uma leve pegada europop transforma a voz de Nicola numa diva bubblegum com temática no estilo de uma Lily Allen (até no clipe percebe-se isso. Mas há uma diferença:  em “Lucky Day”, não há mais nenhum sinal de guilty pleasure.

Lana Del Rey – “Born To Die”

8/10

Lana Del Rey disponibilizou ontem o “áudio oficial” de “Born To Die”, o novo single para o disco homônimo, com previsão de lançamento para o dia 30 de janeiro. A blogosfera (ou melhor, os diversos arquipélagos de blogs, como um analista de mídias sociais já andou dizendo por aí) deu início às discussões – com direito à Marissa Nadler falando mal de Del Rey no Facebook . Mas a verdade é que tudo isso fica à deriva quando se tem uma joia como “Born To Die” em mãos. Claro, não é tão impactante como “Video Games” (definitivamente um 10 agora) ou “Blue Jeans”, o B-side desse single. O que temos aqui é um grower, uma balada ainda mais sutil (se é que é possível chamar algo como “Video Games” de sutil), com vocais mais delineados. A postura é mais fatalista do que nunca enquanto ela diz coisas “Let me kiss you hard in the pouring rain” (sim, ela mudou de “Let me fuck you…” para “Let me kiss you…”) e entrega o fim eminente com “You and I, we were born to die”. Um grande grude kitsch, afinal.

Kate Bush – 50 Words For Snow (2011)

Kate Bush – 50 Words For Snow 2011 front

6.5/10

Um disco como 50 Words For Snow, o novo álbum de Kate Bush, não poderia ser mais descompromissadamente lindo. A exceção é a capa, de longe uma das piores do ano, onde bonecos de neve finalmente encontram a mediocridade artística que vem querendo conquistar há anos, numa espécie de autossabotagem. Digo isso porque 50 Words For Snow soa como um daqueles discos em que é possível, de forma clara e consciente (consciência, nesse caso, mata) confundir objetivos artísticas alcançados (isso, obviamente, na opinião de quem o diz) com qualquer significado ou conceito de beleza, podendo levar às piores comparações de gênero (como se nós precisássemos de mais comparações óbvias do gênero “prefiro Kate Bush a Joanna Newsom” – o contrário disso também vale). 50 Words, claro, não porta nenhuma dessas idiossincracias. É ridiculamente sutil (como quase toda a produção musical de Kate Bush, desde Hounds Of Love até The Dreaming), mas ainda impõe uma visão de mundo, que é exagerada e burlesca, mas que quase nunca falha em prover esse intimismo ingênuo (de novo, para o bem ou para o mal). Com a duração de uma hora, essa viagem pelo mundo que ela constrói nos convence mais por tentativa e erro e pura exaustão do que por uma atitude consciente.

Isso provavelmente soará estranho, já que o disco tem sido elogiado por algumas das mesmas características que me fazem não gostar tanto dele: a narrativa e retórica muito especial que Bush utiliza em suas composições, o clima surreal que insiste em permanecer apesar da ingenuidade das canções e o mais importante até aqui, o fato de 50 Words For Snow ser mais um disco “de canções” do que deveria ser – ou o que algumas pessoas querem que você acredite.

A narrativa de que ela se apropria, de forma a mais notória esse surrealismo que já esteve presente em suas obras anteriores, se manifesta de outra forma: os personagens que ela forma – ela também chega a incorporar o narrador em algumas faixas (somente tente não fantasiar com um verso como “I was born in a cloud”, dita em “Snowflake”, a faixa de abertura) – habitam principalmente as faixas em si, como um todo, e não são meras consequências de fábulas expressas em composições em outros discos. Há um projeto de coesão instaurado aqui, nesse disco, possivelmente como nunca foi visto na obra de Kate Bush, e se isso representa uma enorme evolução, também traz diversos problemas.

50 Words For Snow teria muito mais qualidades a serem exploradas se não trabalhasse tanto com esse tom místico tão característico. A impressão que fica é que a vontade de Bush foi de criar um disco com um que de misticismo, mas que, querendo ou não, independendo de sua vontade, esbarra nesses clichês da new wave que costumavam sustentar a criatividade de uma artista como Kate Bush.

É evidente que não haveria problemas com esse tom místico e característico se ele não fosse tão claustrofóbico. Claustrofóbico não só para o disco em si, mas para nós também, como ouvintes. Esse sentimento de contenção poderia servir muito bem à narrativa, se esse sentimento não o prejudicasse. Toda essa delicadeza faz com que as qualidades inerentes à obra e talento de Kate Bush – o modo estranho com que ela conseguia sempre (quase sempre) essa acessibilidade com um experimentalismo significante – tocarem o vácuo. Cumprindo as expectativas de um disco tão ambicioso (e curiosamente singelo, vamos admitir), o mais interessante que se pode notar em 50 Words For Snow é o quanto ele soa aventureiro em sua essência. Conforme a reprodução das faixas, o que se percebe no meio das faixas (e na metade do disco, quando todos os maneirismos de Bush já foram percebidos e o ouvinte é derrotado por tanta “beleza e sofisticação” brutas), ela está no olho do furacão emocional. Ela é o principal artíficio.

Kate Bush sacrifica muito aqui. E não, ela não recupera a fluência artística de suas composições que ela havia perdido em discos anteriores – até mesmo em Aerial, de 2005. O que ela faz aqui é criar narrativas longas (e que ora conseguem se superar tornando-se catarse, o que acontece com relativa frequência) que precisam de um lar mais ou menos coeso para elas – as canções. Isso, para quem não consegue admitir que um disco como esse tem seus erros e acertos demonstrados e delineados de forma bem evidente, soará contraditório, quase como um erro. Muito provavelmente pode ser analisado também como a famosa questão do tipo “o que espera de um artista”. Sim, é impossível culpar Bush pelas escolhas que ela realiza aqui, da duração do disco até o gênero da retórica que ela realiza, mas é possível culpá-la (eis um verbo difícil, não?), como já foi dito de outra maneira, pela atmosfera surreal de que ela se apropria: uma interpetação esquizofrênica e que soa às vezes infrutífera. Isso não significa, porém, que não haja algo realmente aproveitável em 50 Words For Snow. “Wild Man” é uma linda retratação no estilo Hounds Of Love (não, eu não estou sendo nostálgico, para quem quiser dizer o contrário), enquanto a faixa-título realmente coloca em prática o que o disco propõe de forma austera: os cinquenta sinônimos (na imaginação deles, ditos de forma ridiculamente didática, quase que pejorativa) para neve.

Uma obra de arte tão cuidadosa e que também sabe ser cautelosa até na forma de relatar suas aventuras pode ser lida de diversas formas. Você pode levar em consideração a forma que a narrativa de Bush é destilada ao longo do disco, ou a beleza intrínseca que ela tenta (e algumas vezes consegue) juntar na obra. Mas 50 Words For Snow é reservado demais para realmente ter esse tom de libertação que sua atmosfera sugere, o tipo de disco que soa melhor como projeto e não como algo realmente pragmático, identificável. E é isso que 50 Words For Snow é: um lindo projeto. E nada mais.