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Damon Albarn, Everyday Robots

Qual é o seu disco favorito do Blur? O meu é, pelo menos no momento, 13, o álbum que constatou que o britpop, em seu inevitável fim com OK Computer, tinha algo a ver com a tradição do rock inglês, e não mais com as falsas inovações bacanas (mas ainda assim necessárias) de um Parklife por exemplo.

Digo isto porque, ao escutar o disco novo de Damon Albarn, a sensação é de, ouvir, de longe, o que ocorreu em 13: havia a mesma ironia pós-moderna de Parklife, mas havia, ali, uma necessidade quase sufocante de amadurecimento, não de ideias, mas de sonoridade. Uma última volta de grandeza para saudar os ídolos.

Everyday Robots, escutado assim, tem algo de belo em si: é um disco sobre o século XXI feito por alguém que ainda contém os olhos nostálgicos de um noventista.

Damon Albarn sempre teve algo de comentador social em suas canções, mas elas eram mais que mecanismos de análise: elas penetraram os anos noventa e deram mais significado a ele (algo que o pop é capaz de fazer). Elas pintavam a década de noventa. Elas eram incisivas. Faziam tanto parte da narrativa quanto a criavam.

O contemporâneo para Albarn poderia ser fascinante. Veja: um homem contemplando o mundo que não mais o reconhece (quando, antigamente, era ele que reconhecia o mundo de uma vez por todas).

Há duas consequências para este fato reconhecido em Everyday Robots: de um lado, há algo de encantador em perceber que Damon Albarn quer entender o mundo através da neurose (alegadamente pós-moderna) do fim do século passado, mesmo amadurecido em 13. É o que confere autoridade à faixa título por exemplo: somos robôs segundo uma análise nostálgica. Em 2014, ninguém mais se importa com algo assim. Os contemporâneos já superaram a afirmação de Albarn numa hora dessas, os modernos não.

A outra consequência é a mais óbvia: um tom enfadonho, mórbido, que Damon carrega consigo o disco todo. Se o mundo mudou (a música também, o que parece não afetar o moço), não faz muita diferença. Everyday Robots é tão estático quanto tudo o que ele supostamente ataca de forma subsidiária (podemos colocar aí o constante fluxo de informações, o stream, embora eu acredite que ele não saiba, conscientemente, do que isso se trata, e o rádio — claro, o rádio).

Eis um disco que vai ser muito amado por gente que ainda detém a chave de codificação para a neurose melancólica ainda que, na melhor das hipóteses, este não tenha sido o objetivo dessa alma nostálgica.

 

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