Caustic Window

Imagem

Existe todo um mito concentrado no ideal meio distante de “álbum perdido. Beach Boys, Rolling Stones, Prince, todos estiveram nesse limbo que, mais cedo ou mais tarde, cria uma aura intocável de mistério em relação à música que, sabe-se como como, ficou suspensa em algum canto de alguma gravadora que não liga muito para as pessoas, ou, em casos menos comuns, na mente de artistas que não lançam discos simplesmente porque assim não desejam. Na melhor das hipóteses, nós temos algo tão bonito quanto Smile, dos Beach Boys. Em outros casos, não tem-se tanta sorte e acabamos com um possível b-side dos Rolling Stones.

O que significa dizer que Caustic Window, o álbum perdido de Aphex Twin, que deveria ser lançado em 1994, poderia ter dois resultados maniqueístas e previsíveis para quem vê em música e pop puramente tendências: o disco poderia ser uma boa justificativa para o seu afastamento do público ou ele poderia revelar algo de incrível acerca de Richard D. James.

Aliás, esta é a principal dificuldade de escutar qualquer coisa remotamente antiga na internet, não só porque existe muita coisa que vale a pena ser ouvida disponível antes de semana passada, mas porque eu, por exemplo, eu não tenho as chaves para entender aquilo. O pop do passado, como muito bem definido uma vez, numa via temporal, divide-se como aquele que você vivenciou e aquele que você não vivenciou. A dificuldade, então, reside no desbravamento de épocas e sentimentos que não te pertenciam originalmente.

Pois estão: Caustic Window é um disco de 1994 escutado em 2014. Como alguém deveria tratá-lo? Eu digo que nós devemos contrariar toda a retórica anterior e escutá-lo sem apreciação de contexto. Isto não significa a mesma coisa que dizer que nós devemos ser anacrônicos. Aliás, este último é o contrário do que eu quero dizer. Caustic Window deveria ser escutado como um disco de Aphex Twin e pronto. Sem demais considerações quanto a 1994.

Isto não afasta, porém, o que qualquer pessoa faria numa situação dessas: tentar voltar no tempo a título de memória fiel de um período. O risco, claro, é óbvio: quando o seu único interesse em música do passado é histórico, ao menos que você se esforce, aquilo que você apreciava em primeiro lugar (a música) se torna algo pálido e distante. Por isto nós escutamos tanto o passado (o que, somente por um instante, faz com que eu acredite na retromania): para que nós ouçamos os espíritos velhos delas, que ainda podem nos ensinar algo.

Não é o caso de Aphex Twin.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s