Pragmatismo e a taça

“Não vai mudar nada na nossa vida mesmo”, minha mãe, uma pragmática de coração (mesmo não sabendo disto), disse após a derrota do Brasil nas semifinais da Copa do Mundo para a Alemanha, num placar de 7 a 1. Lembro que ela falou a mesmíssima coisa quando o Brasil perdeu nas Copas de 2010 e 2006. Quando alguém diz isto, é possível falar que a pessoa só mascara o sentimentalismo (exacerbado). Finge-se que não se importa e alguém quer explodir por dentro. Alguém que, verdadeiramente, não se importa não diz nada. Fica calado vendo o circo pegar fogo. É isto o que temos no Brasil: histéricos contra um turma meio seleta e meio vingativa. E outra que entende que a horda descontrolada faz mal a qualquer povo.

Pouco antes do jogo começar, lá estava a família reunida, em forma  e conteúdo. Quando o Brasil tomou o primeiro gol, perguntei ao meu pai se teríamos chance de virar o jogo. Ele respondeu sem ânimo na voz: “Difícil”. Poucos segundos depois: “Difícil”.

Quando a seleção brasileira tomou o segundo gol, meu pai tomou a decisão pouco corajosa (mas humana, profundamente humana, eu preciso admitir), de desligar o televisor. A decisão não vingou muito. A rua estava silenciosa demais. E todo mundo sabe que brasileiro não sabe lidar muito bem com silêncio. Principalmente com o dos outros. Começamos a ficar psicóticos.

Enquanto isto, eu achei melhor ficar no Twitter para contar piadas e retuitar coisas geniais. “Incrível como a gente precisa perder para fazer piada boa”, alguém escreveu em menos de cento e quarenta caracteres.

No terceiro gol, minha mãe deu a ideia de “darmos uma volta” de carro, já que estava tudo muito quieto, tudo muito silencioso. No quarto gol é que tomaram enfim atitude de saírem. Eu fiquei no Facebook mesmo.

Quando eles voltaram, contei aos meus pais sobre o quinto gol. Rolaram algumas piadas sobre blitzkrieg. Digo, nas redes sociais.

No segundo tempo, coloquei filmes da Netflix e imitamos o arquétipo da família americana oitentista. E da propaganda da Netflix Brasil.

No fim da noite, meu pai, abrindo a porta e chegando à nossa casa, disse que “o jogo foi anulado. Usaram um jogador irregular”.

Olhei para ele meio absorto. Ele riu. “Toda vez que o Brasil é eliminado numa Copa a gente faz essa piada”, ele falou, com um sorriso no rosto. “Ah, OK então”, eu falei, meio que agradecendo pela iniciação desta tradição.

Depois disto, ele foi guardar o carro na garagem.

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