Rome Fortune | “One Time For”

Nova do Rome Fortune, desta vez produzida pelo Four Tet.

(Como eles fizeram questão de deixar claro no título do vídeo do YouTube).

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Grouper | Ruins

“Interpretar”, meu professor dizia enquanto postulava em frente à classe, “é um exercício artesanal. Único. Personalíssimo”. Ainda: “interpretar é lançar seu olhar sobre determinado fato ou objeto”.

Lembrei dessa aula sobre Hermenêutica do meu professor que adora interpretar quando escutei logo o início do disco novo de Liz Harris, a Grouper: “Made of Metal” começa ininteligível. Sons, provavelmente, noturnos, evocam muito do disco de 2013, da moça, mas é tudo mais rígido e controlado. Fantasmagórico, eu diria. E com mais precisão. Enquanto (o que parece ser) um tambor sobe em escalas, uma coruja emite seu som usual. Entra-se na cena de crime de Laura Palmer em Twin Peaks.

Eu me pergunto o que meu professor teria a dizer sobre a importância da interpretação num caso desses. Às vezes me pego pensando se ele não seria da escola/inferno de Nietzsche, dos senhores radicais subjetivistas que esbravejam que “não há fatos, somente interpretações” neste mundo. Um mundo assim seria fácil demais para viver.

Acontece que “interpretar” algo aqui não seria uma atitude de grande valia, visto que Grouper não trabalha com fatos e sim situações. Problemas. Como já denunciou Gadamer, a arte (ou, melhor dizendo, a melhor arte) dispensa interpretação — e eu adiciono: senão a do espírito. Aquele que vai contra isto vai simplesmente contra a ordem das coisas. Aquele que acredita estar realizando “crítica” simplesmente está pulando etapas desta verdadeira interpretação.

Por isto Grouper é uma ótima forma de introduzir tais conceitos para gente que adora realizar esta forma de crítica altamente superficial. Liz Harris lida com o vazio dos sons e, conforme vai criando sua música, vai povoando sua arte em ligação contínua com o ouvinte.  Não há fatos, não há contexto. Há o que há. Porém, quase ninguém quer lidar com a crueza e — principalmente — com a beleza.

Dito isto, Ruins é simples em som, mas complexo emocionalmente.

The album is a document. A nod to that daily walk. Failed structures. Living in the remains of love. I left the songs the way they came (microwave beep from when power went out after a storm); I hope that the album bears some resemblance to the place that I was in.

Liz Harris.

A principal diferença deste disco para o The Man Who Died In His Boat, do início do ano passado, é que este aqui não se contenta em narrativas póstumas e, sim, na crueza das próprias canções e, ainda, na catarse. Como dito, Grouper vê até mesmo no ar matéria-prima para confeccionar a música. Eis um grande quadro negro em que ela escolheu criar a música.

Falo em quadro negro porque Ruins traz muitos espaços negativos. Assim como um James Blake fez em seu EP de 2012, Grouper expressa mais pelo silêncio e pela falta de comunicação e linguagem do que por eventuais verborragias sonoras. Tudo retocado por pianos recorrentes e dissonância cognitiva.

Por isto, volto a frisar: o melhor de Grouper em Ruins é que não há o que contextualizar ou interpretar. O que há é o que existe. Puro e simples, assim como a sonoridade deste disco.

 

Merchandise | “Enemy”

Perdi a oportunidade de escrever sobre esta canção no The Singles Jukebox por questões de tempo mesmo, mas talvez isto tenha ocorrido até por melhor. Assim, ganha-se tempo para tratar “Enemy” com o esmero que ela merece.

Carson Cox não é o primeiro cantor e compositor que trata do desprazer do ódio de outrem. Nisto, a canção é simples e direta. O melhor, porém, vem na forma de como Cox apresenta essa retaliação aos inimigos menos imaginativos — que, no fim das contas, estão na mente dele mesmo.

Mesmo que, conforme apontado por gente mais qualificada que eu no assunto, “Enemy” seja somente, sonoricamente, uma releitura muito bem feita de “Satisfaction” dos The Rolling Stones, é no lirismo que ele se exalta. Carson nos dá muitos motivos para ficarmos ao lado dele (e com ele): não há por que rezar ao nosso D’us todo dia (conforme ele diz), e da forma como tudo está é boa por natureza e por nossa bondade (conforme ele também diz). Como já disse,  o “jeito” do Merchandise dá conta do recado.

Call Super | “Fold Again at Last”

Numa resenha muito esperta do disco do Call Super, li que o disco não se trata de um punhado de canções, como se esperaria, normalmente, de um disco de techno (um conceito que traz consigo todo um jargão tecnicista), mas sim de um álbum conciso, um conceito encerrado em si mesmo,. Trata-se de uma ideia com começo, meio e fim. Algo com alcance.

Ainda estou desbravando o disco. Ele é longo, mas as escutadas esporádicas denunciam o contrário do que aquela resenha me avisou, eu acredito. O álbum é traiçoeiro. Ele faz com que eu trabalhe com uma ideia que eu já tenho há algum tempo acerca de discos de música eletrônica.

O disco do Call Super é traiçoeiro porque, quando escutado como música ambiente, ele se torna realmente música ambiente, um verdadeiro camaleão. Ele se une à atividade cotidiana (deveras chata e aborrecida) que qualquer um estaria realizando, e ali fica por tempo indeterminado (oitenta minutos até).

Mas, se percebido com mais esmero e dedicação, ele se revela como um disco sisudo de techno, com começo, meio e fim em suas conjecturas. Suas ideias. Sua mania de rejeitar a humanidade em tons. Sua programação. Os sons obtusos. Tudo se revela magistralmente, eu diria.

“Fold Again at Last” exprime bem essa renúncia à humanidade (conforme visto também, recentemente, em “Home” e “Chorus” de Holly Herndon) que ele confere à música que Call Super cria.  Não chega a ser humano, mas isto não significa que os signos de “Fold Again” não sejam empáticos aos nossos sentimentos. Por mais que tudo seja mecanizado e até calculado, ainda há o que se relacionar com a canção. Há diálogo e, se há conversa, há o que ver e ouvir. É isto o que mais importa.

Holly Herndon | “Home”

Holly Herndon produz suas canções como alguém jovem que mobilia sua própria casa: sem muito cuidado, mas, no final das contas, com uma certa preciosidade com suas conquistas recentes. Os elementos na voz e no futurismo aqui são recorrentes: Herndon desconstrói tudo ao seu redor (sua voz, o techno, a vida) para depois fazer tudo ressurgir com mais coesão. Acredite, isto é pop.

Dias

No The Singles Jukebox hoje, uma blurb sobre “Dangerous Days”, da Zola Jesus:

Danilo Bortoli: Nika Danilova has always seemed to be fighting something in her career so far: the structure of the songs she sang were the enemy, always creating a dialectical movement. At one side, there it was, the oppression of her mechanical sounds. At the other, there was her voice, struggling be heard in a loud tone. “Vessel” is the symbol of this moment. “Dangerous Days” tries to fix this apparent dissonance; it’s, in its heart, a pop song (something she’s been saying since Taiga was announced), and a very good pop record. She’s not fighting anything here, mainly because Zola Jesus finally found her inspiration in nature — and, therefore, seems to be trying to capture it. And while trying to portray her fascination, she (and she can deny it as much as she wants), ironically, reached out to the pop music she’s usually dooming in order to create this lush, ambitious wall of sound. And this is what is so great about “Dangerous Days”: she could only make this song, a record so full of meaning, while finally enfolding what’s on the radio.
[8]

[Sadie Stein]

It must be wonderful to be one of those pedestrians who own the streets. To be one of those people who walks where he likes with Ratso Rizzo–like entitlement, or, better yet, is gracious enough to usher a car forward when, in fact, the car has the right of way. Such people, of course, never give a timid wave of appreciation—a tacit “thank you for not killing me”—when a car lets them cross.

It must be wonderful never to assume your name has been left off the list, or that your card will be declined. It must be wonderful not to have the moment of anxiety, every time you pass through automatic doors, that they will not open. It must be wonderful not to cry every time someone slights you, and feel bruised for days afterward. It must be wonderful to be Rebecca de Winter, rather than her nameless successor.

Sadie Stein, “Inherit the Earth“.