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Grouper | Ruins

“Interpretar”, meu professor dizia enquanto postulava em frente à classe, “é um exercício artesanal. Único. Personalíssimo”. Ainda: “interpretar é lançar seu olhar sobre determinado fato ou objeto”.

Lembrei dessa aula sobre Hermenêutica do meu professor que adora interpretar quando escutei logo o início do disco novo de Liz Harris, a Grouper: “Made of Metal” começa ininteligível. Sons, provavelmente, noturnos, evocam muito do disco de 2013, da moça, mas é tudo mais rígido e controlado. Fantasmagórico, eu diria. E com mais precisão. Enquanto (o que parece ser) um tambor sobe em escalas, uma coruja emite seu som usual. Entra-se na cena de crime de Laura Palmer em Twin Peaks.

Eu me pergunto o que meu professor teria a dizer sobre a importância da interpretação num caso desses. Às vezes me pego pensando se ele não seria da escola/inferno de Nietzsche, dos senhores radicais subjetivistas que esbravejam que “não há fatos, somente interpretações” neste mundo. Um mundo assim seria fácil demais para viver.

Acontece que “interpretar” algo aqui não seria uma atitude de grande valia, visto que Grouper não trabalha com fatos e sim situações. Problemas. Como já denunciou Gadamer, a arte (ou, melhor dizendo, a melhor arte) dispensa interpretação — e eu adiciono: senão a do espírito. Aquele que vai contra isto vai simplesmente contra a ordem das coisas. Aquele que acredita estar realizando “crítica” simplesmente está pulando etapas desta verdadeira interpretação.

Por isto Grouper é uma ótima forma de introduzir tais conceitos para gente que adora realizar esta forma de crítica altamente superficial. Liz Harris lida com o vazio dos sons e, conforme vai criando sua música, vai povoando sua arte em ligação contínua com o ouvinte.  Não há fatos, não há contexto. Há o que há. Porém, quase ninguém quer lidar com a crueza e — principalmente — com a beleza.

Dito isto, Ruins é simples em som, mas complexo emocionalmente.

The album is a document. A nod to that daily walk. Failed structures. Living in the remains of love. I left the songs the way they came (microwave beep from when power went out after a storm); I hope that the album bears some resemblance to the place that I was in.

Liz Harris.

A principal diferença deste disco para o The Man Who Died In His Boat, do início do ano passado, é que este aqui não se contenta em narrativas póstumas e, sim, na crueza das próprias canções e, ainda, na catarse. Como dito, Grouper vê até mesmo no ar matéria-prima para confeccionar a música. Eis um grande quadro negro em que ela escolheu criar a música.

Falo em quadro negro porque Ruins traz muitos espaços negativos. Assim como um James Blake fez em seu EP de 2012, Grouper expressa mais pelo silêncio e pela falta de comunicação e linguagem do que por eventuais verborragias sonoras. Tudo retocado por pianos recorrentes e dissonância cognitiva.

Por isto, volto a frisar: o melhor de Grouper em Ruins é que não há o que contextualizar ou interpretar. O que há é o que existe. Puro e simples, assim como a sonoridade deste disco.

 

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