Força motriz

Faz algum tempo desde que decidi que iria escrever, algum dia, sobre “Right Now”, das HAIM. O tempo tem sido escasso e a procrastinação tem sido avassaladora. Muita coisa, pouco tempo, muito tempo gasto observando o mundo. Coisas bobas, alguém diria. Escrever, porém, é necessário. É imperativo.

Na primeira semana em que “Right Now” veio ao mundo, foi através de uma sessão ao vivo e acústica. Tímida e rústica — ao contrário do que a produção de Days Are Gone, disco polido de 2013 das irmãs, continha e prometia.  Logo depois a versão de estúdio e o anúncio de um álbum novo, Something to Tell You, que virá mais tarde nesse mês. Mais tarde ainda, veio “Want You Back”, que gerou comparações constrangedoras.

Entretanto, não quero escrever sobre essas coisas. Não exatamente sobre elas.

É que a música das HAIM nunca foi sinônimo de catalisador de catarse para mim. Sempre vi o que o conjunto de irmãs faziam como uma grande peça lustrosa: Days Are Gone, um disco pop excelente e de arestas muito bem aparadas,  continha canções acalentadoras do espírito, mais que não causavam nenhum constrangimento epistêmico, assim digamos. O pop não precisa disso às vezes. O muito bom, o técnico, basta. E isso basta.

É que essa versão ao vivo de “Right Now” nada contra a maré. Contém um refrão tão repetitivo e grudento quanto tudo o que as HAIM já fizeram há alguns anos. Mas é a crueza desse espetáculo que deve render ainda mais comparações — injustas — com o Fleetwood Mac por todas as razões erradas desse mundo.

Aqui, é tudo muito simples e direito. “And now you’re saying that you need me, baby”, Danielle canta.

Tudo acaba aqui. Sem grandes ornamentos. Sem grandes complicações. Na simplicidade mais bela que pode existir em música.

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B-side

When we announced that we were releasing a B-sides and rarities album, someone on Twitter asked, “B-sides record? Why would Beach House put out a B-sides record? Their A-sides are like B-sides.” This random person has a point. Our goal has never been to make music that is explicitly commercial. Over the years, as we have worked on our 6 LPs, it wasn’t the ‘best’ or most catchy songs that made the records, just the ones that fit together to make a cohesive work. Accordingly, our B-sides are not songs that we didn’t like as much, just ones that didn’t have a place on the records we were making.

The idea for a B-sides record came when we realized just how many non-album songs had been made over the years, and how hard it was to find and hear many of them. This compilation contains every song we have ever made that does not exist on one of our records. There are 14 songs in total.

The oldest song is “Rain in Numbers” and was recorded in 2005, during the summer we formed the band. We didn’t have a piano, so we asked our friend if we could use his, which was pretty out of tune. We used the mic that was on the four-track machine to record the piano and vocals. It was originally the secret song on our self-titled debut.

Sequentially, the next couple of songs are from late 2008. We were so excited about “Used to Be,” that we recorded it right after writing it so that we could have it as a 7” single for our fall tour with the Baltimore Round Robin. We recorded our cover of Queen’s “Play the Game” in the same session. It was for a charity compilation benefiting AIDS research and we will continue to donate all profits from the song to that charity. As fans of Queen, we thought it would be fun and ridiculous to try to adapt their high-powered pop song into our realm. These songs were recorded at the same studio where we made Devotion.

There are a bunch of songs written and recorded in the 2009-2010 window. This period of time, as well as 2014, was our most prolific to date. “Baby” was written and recorded in October 2009 with our friend Jason Quever. “10 Mile Stereo” was recorded during the Teen Dream session in July 2009. Since we used tape, we often slowed the tape way down to create effects while recording. When we were doing that for “10 Mile Stereo” we decided we wanted to make an alternate version where the whole song was slowed down, hence the “10 Mile Stereo (Cough Syrup Remix).”

“White Moon” and “The Arrangement” were both songs that we didn’t believe fit on Teen Dream. “White Moon” originally appeared on our iTunes live session. Since that was recorded and mixed very hastily, we have remixed it to better match our current aesthetics. We have also remixed and included the version of “Norway” we did at that same session. The main reason we wanted to include “Norway” is that it features a very different bridge from the original version.

After the insane year of touring we had in 2010, we felt incredibly grateful to our fans for all that had happened. We wrote and recorded “I Do Not Care for the Winter Sun” during a break between tours and released it on the internet for free, unmastered. Well, it’s finally been mastered…

“Wherever You Go” is another song from that era. We always loved this song but thought it sounded too much like our old music. We paused writing it and didn’t finish it until 2011 during the Bloom recording session. It appeared originally as a secret song on Bloom.

“Equal Mind” was also recorded during the Bloom session. We really like this song, but pulled it from the record when we realized it had the exact same tempo as “Other People.” They are like twins.

The Bloom sessions led to “Saturn Song” as well. This song is built on a piano loop we wrote while recording Bloom. It also contains sounds recorded in deep space. It originally appeared on a compilation of songs incorporating space sounds that was released in 2014.

Finally, there are two previously unreleased songs from the Depression Cherry/Thank Your Lucky Stars sessions. They are called “Chariot” and “Baseball Diamond.”

Em outras palavras, a mágica do Beach House.

Quando a coisa é mal feita pra todo mundo ver

O Consultor Jurídico soltou uma matéria detalhando bem como as delações premiadas firmados com investigados na lava jato com o MPF podem ferrar com tudo:

Acordos de delação premiada não podem prometer redução da pena em patamar não previsto na Lei das Organizações Criminosas (Lei 12.850/2013), nem oferecer regimes de cumprimento dela que não existem nas leis penais. Caso contrário, haverá violação aos princípios da separação de poderes e da legalidade. Também por isso, esses compromissos só alcançam delitos tipificados por tal norma, e não isentam o Ministério Público de deixar de investigar ou denunciar atos praticados pelo delator.

O resto está aqui.

O subscrito? Habilmente, “nocaute jurídico”.

Take me to emotion, show me devotion

Qualquer dia desses escreverei algo mais detalhado sobre como Carly Rae Jepsen é a rainha de um tipo de pop muito específico — o pop perfeito, não necessariamente nostálgico, mas que se alimenta de uma forma de alegria extrema.

Por enquanto, ela não desaponta. De forma alguma.

P.S.: Ouvi isso aqui pela primeira vez às uma e meia da manhã e não desgrudei dos ouvidos até agora.

De volta

A primeira vez que eu entrei em contato com a obra de David Lynch foi através de Mulholland Drive, a obra-prima de 2001. Um molecote de quinze anos de idade à época, aquele filme me fez entender o cinema de uma maneira nova. O cinema bem que poderia acabar ali, lembro de ter pensado. Uma mistura de deslumbre e estranheza, essa sensação bem descrevia o filme: Mulholland Drive é uma das histórias de amor mais trágicas que eu já vi. Tudo envolto numa narrativa que, de tão aberta, revela muito mais de quem vê do que a própria obra de Lynch. Foi uma forma penosa de adentrar esse mundo, digo: ao mexer com a própria narrativa de forma tão abrupta, Lynch joga todas as cartas na mesa e espera que você lide com elas da melhor forma possível — com a catarse, isto é. O resultado é um retrato tão cruel e bonito do amor.

Mulholland Drive, entretanto, pode entregar uma impressão equivocada do que Lynch tem feito mais recentemente. Depois, encontrei em Inland Empire, de 2006, uma razão para acreditar que ele, se não estava praticamente sozinho nesse jogo quase psicótico de encontro com o transcendental, estava solitário. Em retrospecto, Inland Empire parece ser o mais meta e mais desesperador que ele já foi. Uma paródia de Hollywood, eis um sonho de três horas de duração. Como dito aqui, a obra de Lynch foi, progressivamente, ficando mais inóspita e crua.

Foi com esse olhar inicial que conferi Twin Peaks. O choque foi grande: a série é, em si, infinitamente mais sublime. É nos apresentado um mundo fictício noventista que, em espírito, é envolto na estética dos anos cinquenta. Estações de polícia que se prenderam num círculo de tempo, hotéis que mais se parecem com casarões e lanchonetes que se mantém fiéis demais ao tempo. Tempo, aliás, é algo muito particular aqui.

The owls are not what they seem.

O fator estranheza de Lynch em Twin Peaks é diferente do que ele praticou outras vezes. É como Tom Ewing disse em outra oportunidade: aqui, você é chamado pela história, mas fica pela estranheza de tudo. Os signos — as corujas, o anel, o café, a cidade em si — são itens preciosos. Eles revelam que, debaixo da quietude, há algo de particular ali. Além do comum, do humor involuntário, há algo de humano, de acalentador. Há algo de sombrio, de tristeza, de temor.

Lembro de ler que, na época em que foi lançada, Twin Peaks chocou porque ajudou a criar a televisão como se a conhece hoje em dia: cheia de narrativas complexas, entrelaçadas e um senso de mistério que não vai embora tão facilmente. Olhando em retrospecto, e me despindo de todo esse olhar típico de crítico cultural, Twin Peaks foi muito mais — e é por isso que comemoro tanto essa volta em 21 de maio de 2017. Mais do que uma profecia, essa volta é uma questão de necessidade. Pois bem.

laura palmer screaming

Muita gente esquece do que trata David Lynch. É difícil escalonar a arte de alguém, de separar facilmente a obra e adjetivar usando qualquer palavra, qualquer coisa. Esse é um erro primário que ainda cometo, mas que evito. Escorrego sem dúvida alguma. Mas tudo isso é necessário. Passar por essa fase. Divago.

Alguns dizem que David Lynch guarda afeto, verdadeiro deslumbre, pelo bizarro — seja lá o que é isso exatamente. É uma colocação simplista. Acredito que David Lynch tem verdadeiro deslumbre, em verdade, por duas coisas: pela natureza humana — sua versão crua, não editada — e pelo amor.

Amor é apagar-se no outro.

A obra de Lynch apresenta sempre algum laço presente com o humano (aqui referenciado como adjetivo mesmo) nas mais diversas formas. O humano também pode ser sobrenatural, pode tornar-se sobrenatural porque, para David Lynch, a melhor forma de abraçar a humanidade é acabar negando-a em todo o seu esplendor. Em Twin Peaks, Bob é o mal na Terra. mas Laura Palmer não é o belo e nem tampouco o moral — longe disso. Na verdade, Laura Palmer é a imperfeição — um retrato cândido cheio de imperfeições e antagonias. Laura Palmer só queria sobreviver.

Essa é uma obra que serve de meditação sobre o amor. Não tenho uma definição para o amor que caiba nele mesmo — quem diz o contrário mente descaradamente. Entretanto, li em algum lugar isso: Amor é apagar-se no outro. É sumir. É desaparecer em face de alguém. É anular-se em benefício do outro e, no final de tudo, de si próprio.

Ontem à noite, assisti a Fire Walk With Me como preparação para tudo isso aqui — esse verdadeiro espetáculo. A cena final do que, supostamente, deve ser um prelúdio, uma ode aos últimos dias de Laura Palmer, fez com que eu chorasse tal como ela chorou. Eis o deslumbramento de novo.


Nesses dois novos episódios, nós somos remetidos, a todo momento, àquela velha e pacata cidade. Agora tomando lugar em outros locais — Nova Iorque e South Dakota — o contraste entre o tom mágico da cidade-tema e o resto do mundo fica mais evidente. Enquanto tudo parece ter progredido aos arredores daquela cascata, Twin Peaks, o local, permanece intacto nesse tom noir quase sufocante. A delegacia de polícia permanece com os mesmos equipamentos. As cabanas não mudaram. O tom fanho e afetado de Lucy é o mesmo.

É quase como se David Lynch quisesse portar essa cidade como um santuário — um mito em si mesmo, tal como ficou impregnado na nossa memória e nos pensamentos de quem viu a séria há pelo menos vinte e cinco anos. Ou daqueles que, como eu, assistiram à série na era da internet e aprenderam a amar tudo isso — muito mais como uma forma de escape, tenho que admitir. Eis uma homenagem.

Ou talvez tudo isso seja um plano muito maior dentro da cabeça de David Lynch. O tom deixado pelo final desses dois episódios não deu explicações como era de se esperar. David Lynch realiza tortura. E num nível que se assemelha muito mais a Inland Empire do que Dune por exemplo. Resta esperar.

O que não nos impede de questionar a motivação por trás de tudo isso. A obra desse homem parece se conectar de forma vertiginosa agora. Entretanto, algo é imutável: Twin Peaks começou sendo sobre a história do assassinato de uma garota. Acabou sendo uma meditação sobre sofrimento, dor e empatia nas suas formas mais humanas e cruéis. Num lugar tão maravilhoso quanto estranho.

Maravilhoso e estranho. Eis outra definição para amor.

Gaaaaaaaaaaaaay

Uma das entrevistas mais encantadoras que eu li no The FADER em algum tempo. Olha só:

SPERBER: This is a really difficult time to be a gay party. It’s a really exciting time but the worst thing you can do is say that you are something that you’re not, and we are a gay party. We’re four gay men doing a party that is predominately men that come to the event. What we try to do is hold space and create forms of discussion and respect without having to kind of scold the people that are supporting what we do. There’s a very aggressive — and rightfully so — conversation out there right now about not just inclusion but exclusion, like the idea that some spaces are never going to be appropriate and they need to be recognized and maybe called out.

At least on the Honey side of things, what we’re just trying to do is be not only aware but make space where we know it’s not appropriate for us to be a part of the conversation. That’s as impactful as being a part of the conversation.

A entrevista toda está aqui.

Juízo político

Voltou a rondar a internet um entendimento do STF, ainda quando tratava do impeachment do Collor em 1992, para falar do dever de investigação dos Presidentes da República. Vale a pena falar do que o Ministro Celso de Mello disse em 1992 — e também como tudo mudou em 2014.

  • O art. 86, § 4º, da Constituição, ao outorgar privilégio de ordem político-funcional ao presidente da República, excluiu-o, durante a vigência de seu mandato – e por atos estranhos ao seu exercício –, da possibilidade de ser ele submetido, no plano judicial, a qualquer ação persecutória do Estado. A cláusula de exclusão inscrita nesse preceito da Carta Federal, ao inibir a atividade do Poder Público, em sede judicial, alcança as infrações penais comuns praticadas em momento anterior ao da investidura no cargo de chefe do Poder Executivo da União, bem assim aquelas praticadas na vigência do mandato, desde que estranhas ao ofício presidencial. A norma consubstanciada no art. 86, § 4º, da Constituição, reclama e impõe, em função de seu caráter excepcional, exegese estrita, do que deriva a sua inaplicabilidade a situações jurídicas de ordem extrapenal. O presidente da República não dispõe de imunidade, quer em face de ações judiciais que visem a definir-lhe a responsabilidade civil, quer em função de processos instaurados por suposta prática de infrações político-administrativas, quer, ainda, em virtude de procedimentos destinados a apurar, para efeitos estritamente fiscais, a sua responsabilidade tributária. A CB não consagrou, na regra positivada em seu art. 86, § 4º, o princípio da irresponsabilidade penal absoluta do presidente da República. O chefe de Estado, nos ilícitos penais praticados in officio ou cometidos propter officium, poderá, ainda que vigente o mandato presidencial, sofrer a persecutio criminis, desde que obtida, previamente, a necessária autorização da Câmara dos Deputados.

    [Inq 672 QO, rel. min. Celso de Mello, j. 16-9-1992, P, DJ de 16-4-1993.]

O link com tudo mais está aqui.

Sobre o futurismo

OK. Não exatamente sobre o futurismo, mas o Gizmodo tem um dos textos mais encantadores sobre a mania cientificista que li em algum tempo. Eis então:

Over time, as technology has changed, so have the metaphors, but the gist is the same: the body is but a fancy machine. This mode of thinking has spawned a philosophical doctrine, generous research funding and misleading jargon in both the realms of biology and computing (see the brain’s “circuits” or deep learning’s “neural networks,” which have more in common with classical computational models than anything neurobiological).

But this point of view becomes especially troubling when the realms of biology and computing merge. We risk starting to treat the human body—in all its complexity, fragility, resilience and mystery—like the machines we compare it to. We risk over-promising on the deliverables, wasting time, money and public patience on far-out research we suggest we can hack together in a few years. And we risk compromising our health and well-being in the process.

 Em tempo, um ensaio na Aeon sobre a mesmíssima coisa. O seu cérebro não é um computador.