Três atos, mil palavras

Lorde
Melodrama
8.5/10

Dia desses, eu estava pensando em como falar de arte. Em como falamos de discos, filmes, canções, livros e tudo mais que deve movimentar a nossa alma. Em como nós, às vezes, usamos hipérboles ridículas para falar das coisas mais simples que nos fazem sentir algo, qualquer coisa, na flor da pele. Às vezes o impulso é muito grande e acabamos escrevendo tratados desnecessários sobre obras que, no fundo, não significam tanto assim para você. E esse é um marco importante para o olhar (e ouvidos) de quem escreve sobre e aprecia o que se convencionou de chamar de arte: o que importa numa obra importa, necessariamente, para você. Para o seu mundo, suas referências, seu lugar. Por favor, não confunda isso com solipsismo. É que a arte resplandece sempre numa morada para quem lida com ela.

A arte cria, para quem se importa com ela e com o mundo, um lar a ser habitado.

Desculpe, esse texto vai ser um pouco mais intimista. Um verdadeiro balde de água fria.

Ato I: melodrama na vida real

A noite mais triste da minha vida aconteceu ano passado. Um grupo de amigos e eu havia saído por aí. Fomos a vários locais até que, num determinado momento, rumamos a uma boate lotado perto do centro da cidade. Lembro de comparar aquele local a um formigueiro quando cheguei lá: ele tinha, pelo que me recordo, o maior número de cabeças por metro quadrado que tinha presenciado na minha vida até então. O local tinha dois andares e a escada (uma só) passava sempre por uma espécie de engarrafamento.

Meu questionamento sempre foi: Que tipo de pessoa se sujeita a aquilo? Meus amigos foram, rapidamente, comprar bebida enquanto eu tentava achar algum lugar adequado no segundo piso. A música era horrível. As luzes idem. Um volume ensurdecer me atazanava até o ponto em que um colega meu, minha carona que tinha as minhas coisas no carro dele, decidiu ir embora. Eu me perdi do restante da galera.

Não sei em qual momento exatamente, mas, durante aquela noite, naquele local, com aquelas pessoas, tive um desses poucos momentos de epifania. Eu percebi que não precisava estar ali e que não era exatamente necessário. Era alguém, fudidamente perdido, no meio da multidão. Um clichê ambulante.

Peguei o que tinha sobrado da minha dignidade — pouca coisa, admito — e saí do local sem saber muito bem em que direção rumar. Acionei o GPS e percebi que minha casa estava a seis (não me recordo exatamente) quilômetros dali. Não havia mais rota de ônibus por ali por causa do horário. Bêbado e com a bateria do celular acabando, usei o restante da bateria para encher os fones de ouvido. Blonde, do Frank Ocean, um dos discos mais melodramáticos do ano passado, finalmente fez todo o seu sentido naquela noite.

Caminhei por duas horas. Ninguém percebeu que eu tinha ido embora. Ninguém ligou no dia seguinte.


Ato II: Melodrama, o disco

Melodrama, novo disco da Lorde, é um álbum sobre crescer. Essa afirmação pode carregar consigo todo tipo de preconceito. Afinal, a narrativa é antiga e os filmes coming-of-age já fazem um bom trabalho de descrever todo o adorável processo pelo que passa o sujeito que, de repente e sem mais delongas, vê-se e é visto diante do mundo. Melodrama, a palavra, é um substantivo apropriado portanto. Em entrevistas, Lorde entregou o tom do disco: Melodrama, o álbum, supostamente segue cronologicamente uma festa. É, acima de tudo, uma trilha sonora. Do início ao fim, a narrativa é um término de namoro regado a festa.

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Antigamente, como eu inclusive disse quando escrevi, mais cedo este ano, sobre “Green Light“, a primeira canção oficial do disco, Lorde era uma espécie de heroína (o título do primeiro álbum não me deixa mentir) para aqueles sujeitos que se autointitulavam donos do mundo. Sujeitos que existiam na noite. Deslocados. Párias. Por tudo isso, Pure Heroine entregou uma visão perfeita da adolescência que vem junto com essa dualística: todo adolescente é sublime e, ao mesmo tempo, um arrogante sonhador filho da puta.

A “questão” central é saber crescer saber equilibrando tudo isso sem se fuder no meio do caminho.

Crescer é saber, também, olhar para fora de si e perceber (e apreender ) a realidade. Lorde faz exatamente isso e é algo que estranhei quando escrevi primeiramente sobre “Green Light”: Lorde escreve, agora, de fora para dentro. São poucos os hinos convocatórios angustiantes. Tudo é mais subjetivo. Lorde costumava escrever hinos que trespassavam sua subjetividade — “A World Alone” é universal do jeito que somente um jovem adulto consegue compreender. Viver em bolhas é uma característica romântica (e recorrente) hoje em dia, mas a questão é que bolhas, eventualmente, estouram. Até nunca mais.

A impressão que fica é que Lorde não escreve mais para sujeitos indeterminados — garotos e garotos entendiados frequentadores do Tumblr, diga-se, e isso é extremamente importante. “We pretend we just don’t care, but we care”, Ella canta em “Sober”. Essa pedaço poderia ter sido tirado de “Tennis Court”, de Pure Heroine, mas pela força do destino, felizmente, não é. A situação é outra:  tudo é mais intimista. Menos universal e, logicamente, mais particular. Um mundo de Lorde.

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Isso fica mais evidente quando “The Louvre”, uma das canções mais otimistas de Melodrama, aparece: como num jogo de luzes, Lorde transforma a canção num antiquário do seu próprio relacionamento. E o amplia: “Broadcast the boom boom boom boom and make them all dance to it”, ela canta, colocando um megafone no peito.  É apresentado o amor.

Existe uma visão de mundo muito bem formada aqui. “Liability” apresenta uma prática recorrente no disco: uma balada de piano cujo estilo é depois revisitado diversas vezes ao longo do disco.

Nada está plenamente resolvido em Melodrama — algo óbvio pelo nome que ela escolheu conferir ao disco. Não que o psicologismo seja a melhor forma de abordar o disco, mas o que alimenta tudo isso é a incerteza de Lorde, essa tensão. Melodrama é Lorde tomando conta de uma narrativa velha e batida — o descobrimento dela como compositora, como mulher e artista, como pessoa solta no mundo, como amante dele — e a toma para si.

Ao mesmo tempo em que Ella deixou de ser uma mera observadora do mundo, como ela fez com uma certa maestria em Pure Heroine, ela parece ter adentrado nele. “Green Light” a joga no meio de um furacão. A faixa título (também chamada de “Sober II”) parece dar o toque final à festa que impulsiona o disco. Claro: é tudo uma metáfora gigante. Melodrama é sobre um disco, acima de tudo, sobre o início da vida adulta e tudo o que vem junto com ela.

É por isso que Melodrama não poderia terminar de outra forma. “Perfect Places” é a soma de todas essas considerações. No fim de tudo, Lorde parece perceber que não existem santuários e vacas sagradas. Que lugares perfeitos não existem (“What the fuck are perfect places anyway?”, ela questiona na última frase do disco), mas que o escapismo é, ironicamente, o melhor refúgio para essa adolescência tardia — que, inclusive, já deixa saudades.


Ato III: Melodrama, o substantivo

No início desse ano, eu estava numa encruzilhada. Não sei a definição certa daquele momento da minha vida, mas acredito que a mais próxima da realidade, de qualquer forma, seja crise de identidade. Uma crise de postura, diga-se, já que eu não sabia como eu poderia me portar.

Ia a festas todo final de semana.  Queria conhecer pessoas como numa espécie de adolescência tardia e irresponsável. Não sabia exatamente o que procurava naquela época um tanto quanto sombria, mas reveladora — ainda não sei ao certo, admito humildemente. Lembro de fazer tudo isso com uma sensação de desbravamento. Claro que tudo isso deu no que deu. Fiz e desfiz amizades num intervalo de semanas. Uma sensação de arrependimento veio depois, o que, entretanto, fortaleceu o caráter.

Mas acredito que essa minha fase — pequena e transitória ao extremo, pelo que me lembro — é compreensível. E explicável pela psicologia mais barata disponível no mercado. Compreendo, no entanto, que isso não torna as minhas experiências menos legítimas. Pelo contrário, legitima essas narrativas.

O novo álbum da Lorde é sobre esse caráter sombrio e, como o próprio título indica, melodramático desse submundo, desse inferninho a que nos submetemos como forma de socialização. Lembro daquelas festas, daqueles rostos iluminados madrugadas afora exatamente como Ella os pinta e representa aqui: uma forma de esquecer o horror e a fantasia que nos aguarda, prontamente, numa segunda-feira às oito horas da manhã. É uma proteção. Forma fugaz de proteção, mas ainda proteção.

Tudo isso, como era de se esperar, esconde por trás uma tristeza e vazios imensos. Pelo menos é assim que lembro do meu início de 2017. E é isso o que Lorde canta na maioria do tempo em Melodrama. Mas ela faz uma ressalva: as festas, os amores, tudo isso é experiência. É sobre isso Melodrama. Esse é o ponto de esperança ao qual eu mais me agarro no momento.

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Lorde, Melodrama
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