Mês: agosto 2017

Iluminado

Quando Julien Baker lançou seu Sprained Ankle no ano passado, não prestei muita atenção no início. É que a música da moça, num primeiro contato, demonstra que vai levar tempo. Eis um nome estranho e enfadonho para se dar para música, mas “minimalista” parece descrever as canções daquele disco de início de carreira. A voz, geralmente escondida debaixo da produção, não parecia dizer muito. O que evitou fazer de Sprained Ankle música típica de elevador foi sua capacidade como narradora. Baker paga um tributo aos compositores que trabalham com sua arte como quem rasga páginas de um diário. É bonito, mas cansa a alma. E como cansa.

“Appointments” é a primeira canção que temos de Turn Out The Lights, o segundo disco de Baker. A mudança chega a ser radical. Longe está o abstracionismo daquele primeiro álbum. Baker traz algo mais concreto. A voz é mais gutural. A cadência é mais sentida.

O golpe final é dado com isso:

“Maybe it’s all gonna turn out alright

And I know that it’s not, but I have to believe that it is”

Jesus Amado.

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Trauma

A resenha de domingo da Pitchfork de hoje foi sobre a obra-prima do Tears for Fears, Songs From the Big Chair. Uma raridade nesse site:

Then, Tears for Fears turned up in an unlikely place: Donnie Darko, a film that subverts ’80s teen movies. “Head Over Heels” is memorably included during a slow-motion montage, but Tears for Fears were mostly rediscovered by younger audiences thanks to Michael Andrews and Gary Jules’ cover of “Mad World.” By peeling away all the circuitry and flash of the original, replacing the gizmos with mostly non-electronic instruments, and slowing the tempo, Andrews and Jules exposed “Mad World” as the post-9/11 emo ballad it was perhaps destined to be. As the 2000s progressed, you’d hear Tears for Fears incrementally more often. In 2008 Kanye West sampled the chorus of The Hurting’s “Memories Fade” on “Coldest Winter,” from 808s & Heartbreak, coincidentally about an artist trying to deal with the death of his mother.

Today you’ll hear “Everybody Wants to Rule the World” all over the place—it’s a staple of classic-rock radio, pharmacies, bars, and parties. But at its core the song is still dealing with Janov; with how, ultimately, what human beings want is control, and the inability to control your own life is misdirected into a desire to overpower other people. It’s a constant with Songs From the Big Chair: interior drama is construed as being about collective suffering. Personal chaos is universal. Welcome to your life. There’s no turning back.

Ainda há salvação. #pray4p4k

[Julius Krein]

Mr. Trump once boasted that he could shoot someone in the street and not lose voters. Well, someone was just killed in the street by a white supremacist in Charlottesville. His refusal this weekend to specifically and immediately denounce the groups responsible for this intolerable violence was both morally disgusting and monumentally stupid. In this, Mr. Trump failed perhaps the easiest imaginable test of presidential leadership. Rather than advance a vision of national unity that he claims to represent, his indefensible equivocation can only inflame the most vicious forces of division within our country.

Palavras de quem, um dia, apoiou esse homem.

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Post scriptum: Continuando a falar desse homem, gostei bastante do American Affairs, publicação que ele começou mais cedo este ano. Eis algo sobre o conservadorismo e sua corrupção – claro, pela economia.

 

Espontaneidade

Por dois dias, fiquei ruminando sobre o significado de um acontecimento, um evento. Ainda estou. Algo do porte daqueles que fazem com que você pense sobre tudo e todos ao seu redor, o seu papel na vida das pessoas, bem como o seu papel na sua própria vida.

Trocando por miúdos: há dois dias, algo fodido aconteceu. Algo fodidamente complicado. Algo que implodiu relacionamentos. O meu, de outras pessoas e que escancarou verdades. Desnudou pessoas e comportamentos. E que me mudou. Se foi para pior ou melhor, não sei. Ainda preciso digerir tudo isso

Não sei como escrever sobre “tudo isso”. Também não sei como adicionar mistério a esse enredo. Nem sei, também, como tratar este post. Merda acontece. A vida segue.

Entretanto, algo mudou. Como alguém que admiro muito uma vez disse sobre “Say Something Loving“, do The xx, às vezes é preciso endurecer um pouco o coração para poder amar. Amar melhor. Eis uma lição. Uma nota mental, eu diria.

Pouco tempo atrás, o Wolf Alice lançou o clipe para “Don’t Delete the Kisses”. Só tinha escutado a canção. Assisti ao vídeo pela primeira vez há pouco. Aprendi que essa banda faz música para quem gosta de sonhar acordado. O vídeo me faz lembrar de algo importante, que faltou na noite de dois dias atrás: espontaneidade. Um pouco de coragem, talvez, para enfrentar o mundo.

Li há pouco que o oposto da vitalidade (da vida portanto) é a mágoa. Que isso fique bem registrado. Isso é um mantra a ser vivido.

Dito isso, vou deixar o clipe aqui. É bonito.

Talvez essa seja a canção do ano. Uma boa escolha.

Quentura

Há algum tempo, escrevi sobre o que o disco da Lorde, Melodrama, significava para mim. Foi uma das coisas mais difíceis que escrevi na vida — tanto é que, logo após a publicação da postagem, senti alívio. Não exatamente pelo teor do texto, mas sim pelo que tinha acabado de fazer.

Existe algo de libertador na escrita. Mais especificamente, na catarse que algo assim exibe.

Entretanto, descobri, também, que a fotografia tem esse mesmo efeito. Abaixo, um punhado do que tenho tirado e feito.

(mais…)

Às vezes é possível ficar extasiado com a quantidade de música no mundo. É possível ficar petrificado com o número de possibilidades. Mixes podem diminuir essa ansiedade. São recortes de uma realidade fornecidos por quem faz a seleção. O da Clara La San é um bom exemplo dessa capacidade de síntese.

Venha.

Escapismo

Não é segredo algum — nem para mim ou mesmo para os outros — que não escuto mais música como fazia antigamente. Isso não significa que, de vez em quando, eu não possa escrever sobre o que mexe comigo. Por isso, aquele post aberto e confessional — portanto, adolescente — sobre Melodrama. Dia desses, ainda falo de como aquele texto gerou uma reviravolta no meu mundinho.

Mesmo assim, aquela página de diário escancarada e rasgada não tratou de tudo que eu havia de falar sobre o disco. Na verdade, foi mais um tratado sobre mim, minhas amizades e solidão do que propriamente algo sobre a música. Ou, talvez, eu esteja errado: a única forma de discutir música, verdadeiramente, é falar de si mesmo.

“Perfect Places” fecha Melodrama num tom evidentemente escapista. Melodrama, como eu disse milhões de vezes, é sobre entrar na vida adulta. Existem centenas de milhares de discos pop sobre isso. É batido. Talvez seja até possível dizer que isso é clichê. Mas algo igualmente lugar-comum precisa ser dito para rebater isso (clichês, ironicamente, são rebatidos melhor por outros clichês): Cada voz é divina. É individual. Personalíssima. Lorde trabalha aqui como narradora do mundo. Desbravadora.

De tão desbravadora que é essa moça fez o clipe mais óbvio para a melhor canção do ano. Aqui, ela visita lugares paradisíacos que são muito parecidos com o que ela mencionou numa entrevista, mais cedo este ano, no Jimmy Fallon. Um vídeo terrivelmente óbvio.

Eu estava já com as pedras nas mãos quando lembrei do que Lorde, ela mesma, tinha escrito sobre o disco que ela criou. Numa espécie de laboratório em que artistas podem discorrer, livre e humildemente, sobre suas obras, Lorde escreveu algo sobre Melodrama que se encaixa, também, em qualquer outra relação tortuosa existente entre autor e obra:

The record I ended up making surprised me, I think. It’s rich and lush, technicolour. There’s joy to it, and pain. I’m struck by how sensory it is. In some ways it’s a celebration of the senses, a devotional you can feel all this, and stay standing!

De repente, está tudo perdoado.