Um sonho dentro de um sonho

Eu sempre penso um pouco antes de começar a escrever posts longos — até mesmo longuíssimos — neste espaço que, a cada dia que passa, tem se tornado mais rarefeito, mas, às vezes, é preciso escrever. Simplesmente escrever.

Há dois dias, tive um sonho. O primeiro sonho do qual eu me recordo há meses. Rotineiramente, sonho e recordo deles em fragmentos. Dessa vez, lembro da maior parte dele. Isso significa que, muito embora, não lembre do começo, lembro do seu desenrolar até quando, efetivamente, acordei. Sem gritar dessa vez.

Como disse, não lembro do começo. Na verdade, ninguém lembra do começo de um sonho, já que algo assim indicaria que você saberia que começa a sonhar. Ninguém sabe dessas coisas. Eis um dos mistérios do sono.

Eu estava numa escola. De Ensino Médio, talvez, já que todos estavam vestindo um uniforme branco um tanto quanto típico de adolescente emburrado com a vida. Numa sala de aula qualquer, a professora — de cuja fisionomia não recordo — pedia que os alunos apresentassem trabalhos de qualquer tipo. Lembro, efetivamente, de que se tratavam de seminários. A sala, como de costume é, foram divididas em grupos. Alguns queriam usam o projetor. Outros planejavam coisas mais simples e menos sofisticadas. Porém, todos estavam engajados em alguma sorte.

O meu grupo trabalhava com livros. Nossa missão, não sei por qual razão específica, era apresentar livros. Isto é, cada membro do grupo iria falar de algum livro em particular. Para isso, tínhamos à nossa disposição uma prateleira branca cheia de livros. Não sei como, mas escolhi um que já tinha lido. Na minha imaginação, claro. Quando o peguei na mão, claramente era usado. Tinha marcas de uso como qualquer outro livro existente. A capa, lembrando agora, intriga: consistia, basicamente, numa foto preto e branco de um surfista no mar. O título ocupava quase a totalidade da capa. Era longo. Longuíssimo. O que mais me intriga, agora dizendo isso, é que os capítulos eram números aleatórios.

Engraçado como sonhos começam não fazendo sentido e terminam fazendo menos sentido ainda.

A professora, de súbito, disse para mim algo do tipo: “O pessoal ainda vai demorar ainda. Comece”.

Peguei o livro novamente. Daquela vez, porém, ele estava envolto em plástico tal como um novo estaria. Peguei, portanto, aquele mesmo livro numa versão nova. Aquilo havia me ferrado, já que não lembrava de mais nada da trama e do que aquele livro tratava. Um branco na mente.

Mesmo assim, com um tantinho de coragem, abracei a missão. Fui para a frente da classe e comecei a falar. Falar o que dava na telha naquela hora. Lembro que até falei bem. Não enrolei muito até porque não sabia muito do que falava naquele momento.

Só que algo tinha começado a acontecer: uma conversa paralela insuportável tinha acometido os outros alunos, meus supostos colegas e amigos. Aquilo me deixou nervoso. Puto. Rancoroso. Com sangue nos olhos. Fitei, no final da sala, uma moça loira que ria da minha cara. Num impulso, fui até a carteira da garota. Puxei os cabelos dela para trás e falei: “Eu quero que você morra”.

Daí as coisas ficaram mais doidas ainda: Quando disse isso, aconteceu, dentro do sonho, algo que acomete a minha imaginação de vez em quando. Quando falei isso para a garota (dentro do sonho), uma visão se abriu: imaginei que batia a cabeça dela na carteira repetidamente até que sua cabeça se abria de forma a jorrar sangue para todos os lados.  Ainda não satisfeito com isso, joguei ela no chão e comecei a chutar aquela mesma cabeça. Repetidamente. Até que sobrasse uma gosma. Gore.

É que, quando alguém me irrita profundamente, imagino bater a cabeça da pessoa, repetidamente, na parede e depois a chutá-la até não sobrar nada da massa encefálica. Quando penso nisso, ranjo os dentes e contraio os músculos. Logo depois, relaxo.

Eu sou louco mesmo.

Corta para o sonho novamente. Ou o primeiro nível do que eu chamo de sonho. Eu não tinha feito aquilo exatamente. Nunca teria coragem de fazer isso na vida real. Então, como teria de fazer isso num sonho? Claro que não cheguei a fazer aquilo. Portanto, diante da minha impotência, a moça diz:

“E daí? O que você vai fazer?”

Pronto. Com essas palavras a loirinha havia me desarmado. Não me surpreende que, depois de ouvir isso, eu tenha acordado. Com razão. Eis a lição de moral da fábula. No meu caso, uma fábula sangrenta e psicótica.

Ocorre que, pela primeira vez, acordei calmo. Por mais que as imagens que esse sonho trouxe tenham sido, no mínimo, desagradáveis — ninguém quer desejar a morte de ninguém, acredito — acordei sem sono e sem pestanejar. Admito que isso tenha sido um aspecto estranho — muito, muito estranho — desse devaneio.

Foi diferente do que tenho experimentado. Dia desses, acordei gritando. No meio da madrugada. Minha mãe, coitada, foi me socorrer. Porém, não me lembro de nada agora. Talvez eu tenha lembrado na hora mas esqueci com o passar dos dias. Um lembrete mental agora: preciso começar a roteirizar os sonhos. Talvez eles possam valer, um dia, um spin-off de Twin Peaks.

Eu divago porém.

Falei desse sonho a só duas pessoas até agora e comecei a desenvolver algumas explicações. Esse meu devaneio envolveu algumas ideias principais: pessoas, rejeição, morte e livros. De forma muito proeminente, livros. Muitos livros.

Os livros parecem ser a conexão mais óbvia. Não é segredo nenhum que eles têm se tornado uma forma de escape nem tão saudável que desenvolvi. Melhor disso, uma obsessão que voltei a desenvolver. Vide, por exemplo, o quanto me identifico com as neuroses e com as descobertas de Valis, objeto de citação do post anterior.

(Uma ideia: De certa forma, esse post aqui serve de exploração do livro de Philip K. Dick, algo que foi prometido e que agora é cumprido. É que muito do sonho advém, como consequência, da leitura de Valis, uma obra-prima que me inquietou pelo menos nos dois dias seguintes à sua leitura. E que ainda perturba).

Por isso, eles são a forma pela qual eu me expresso no sonho. Ou, pelo menos, a forma que me dá motivo e paixão para falar na frente de todo mundo. A razão pela qual eu defendo um ideal e quero me posicionar no mundo. A sala de aula, Deus sabe, deu para mim tantas bençãos quanto traumas. De certa forma, é cruel que, num sonho, eu volte a ela. Divago, porém, novamente.

Por mais que eu entenda a obviedade dos livros. ainda não entendo a razão de, no momento em que pego o livro de novo, ele é novo. Como comentei com uma amiga, talvez seja um glitch na Matrix, ou algo sobre o meu fetiche sobre comprar livros, algo que tenho feito reiteradamente nos últimos tempos.

O mais importante, eu sei, não é isso. É a frase que digo para a moça que me infernizava. “Eu quero que você morra”. Não existe explicação fácil para isso. Ouso dizer que ela representa um medo muito forte contra a rejeição. O fato de eu ser remetido a uma sala de aula, numa apresentação, não me parece aleatório. Não nesse contexto. Eis um medo.

A lição que retirei, inicialmente, é que é inútil procurar aceitação no outro. Por isso, as risadas e a conversa na sala de aula. Como em Valis, é melhor procurar Deus em você ou, talvez, no mundo, do que tentar achar Deus no outro. Com raríssimas exceções, você acaba doido. Eu sou prova viva disso.

Uma outra frase impactante de Valis e que forma o título do outro post fornece ainda mais peso para essa ideia. “Eu sou o que sou”, Deus, na forma de uma menina de nove anos de idade, diz.

“Eu sou o que sou”.

“Eu sou o que sou”.

“Eu sou o que sou”.

Não importa quantas vezes você repita isso, essa frase representa exatamente o que ela representa. Diz exatamente o que diz. Existem coisas que são feitas para o desconhecimento.

Esse é o mistério da fé.

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