Mês: setembro 2017

Arrependimento

Há grande arte a ser retirada do perdão. Antes de qualquer coisa, de perdoar a si mesmo por qualquer coisa que tenha te impedido de enxergar, algum dia, a verdade. Esse é um ultimato. Se bem aproveitada, essa conversão gera catarse.

Miley Cyrus sabe disso. Tanto é que Bangerz, lançado em 2013, foi de um sucesso tão estrondoso que, pelo menos naquela época, parecia que o mundo girava em torno da moça. Younger Now, a canção e o disco novos, dão conta de uma transformação óbvia: Cyrus olha para trás não com um olhar nostálgico, mas olha para frente com um tanto de arrependimento. De tão arrependida, tentando correr tanto atrás do prejuízo, o resultado é uma ode a uma suposta paz de espírito recém-conquistada.

Não sei se vou escrever sobre o disco em si depois (o tempo e paciência são escassos ultimamente), mas só gostaria, por enquanto, de deixar isso registrado: é louvável uma tentativa de reconstrução de uma persona, de redimir quaisquer pecados. O teatro todo até que me convence. Eu entendo tudo isso. Só faltou força e determinação.

Mais importante talvez: faltou paixão pela vida da qual ela diz sentir tanta falta.

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Decaimento

Quando eu era estagiário da Advocacia-Geral da União durante o terceiro ano da faculdade, convivi com as pessoas mais excêntricas dentro daquela Procuradoria. Uma delas era meu chefe. Ele se orgulhava em conter, dentro do servidor daquela Seccional (bem como em backups pessoais muito bem organizados) toda e qualquer petição, ação ou documento utilizado por ele desde que entrou nos quadros da instituição. O homem era (ainda é, acredito) um crânio.

Numa dessas conversas, eu perguntei sobre a necessidade disso. Confesso que não acreditei e não dei muito crédito à explicação dele. Lembro de ter pensado na maluquice de tudo aquilo.

Algo que ele disse, porém, chamou a minha atenção. Ele disse, enfaticamente, que a maior dificuldade, com o passar do tempo, na hora de lidar com aqueles milhares de arquivos, é a compatibilidade. Explico. É que, por mais que os arquivos originais possam muito bem continuar sendo os mesmos, guardados naqueles HDs obsoletos, o software não. Ele sempre muda. Sendo assim, para abrir e editar um arquivo, um documento de 1995 por exemplo, as coisas se complicam ainda mais.

Lembro dessa fala dele — um tanto quanto apocalíptica quando li que todo o acervo de sons da Biblioteca Britânica estava ameaçado justamente por uma questão, quem diria, de compatibilidade.

A tecnologia é uma benção. Exceto quando ela ferra com tudo.

 

Um tormento chamado ansiedade

A cada dia que passa, minha certeza só é uma: a existência é, em si, modernamente, ansiedade. Por isso esse texto aqui de Nitsuh Abebe na New York Times Magazine é tão enfático num diagnóstico bastante necessário.

Lê-lo é uma dádiva. “Anxiety, after all, need not be rational, need not be coherent, can contain multitudes”, como ele diz.

 

Uma canção sobre tudo e todos

Sozinhos, ao longo dos anos, Courtney Barnett e Kurt Vile criaram canções extremamente mundanas e que se aplicam a narrativas sobre o mundo. É vago assim mesmo. Em “Over Everything”, existe esse sentimento potencializado.

Algo sobre nada e tudo ao mesmo tempo.

Seria um desperdício de tempo, uma piada em si mesma, se essa criação não fosse tão bonita.

Sabático

Quatro horas da tarde. Sábado e domingo. São esses momentos que eu dedico, quase que num ritual, a um processo que já leva alguns anos.

Coar o café, sentar numa mesa, pegar um livro ou, ainda, sentar na frente do computador para escrever.

Escrever qualquer coisa.

Como isso daqui por exemplo.

De qualquer forma, existe algo de muito poético nessa imagem que eu construo desses momentos. De tão poético surge algo assim: