Uma teoria una

Mais uma da série dos rascunhos do Google Docs que merece ganhar vida própria.


Uma das coisas que mais me afligem, intelectualmente, tem a ver com a formulação de uma teoria um tanto quanto una. Digo, existem esforços hercúleos no sentido da construção de uma Teoria do Direito — John Rawls com sua teoria do Direito como Justiça, Ronald Dworkin que traz a noção de Direito como integridade, e por aí vai. Adicione a isso uma Teoria do Estado que, pouco a pouco, devido ao neoconstitucionalismo, tem desaparecido ao detrimento do surgimento de uma Teoria da Constituição, eis que a Constituição funda o Estado – e não o contrário, como alguns tendem a acreditar.

Todas essas preocupações têm nome, número e gênero bastante específicos. Todas as teorias lidam com o fenômeno do Direito interno. Ronald Dworkin não projetou para fora do Estado sua índole de Direito como institucionalização da moral. Em verdade, precisou da figura do Estado para dizer justamente o que disse em seu Justice for Hedgehogs.

A minha inquietação teórica reside no fato de que, até o presente momento, não logrei êxito em encontrar teorias ou autores, ou qualquer coisa que minimamente se assemelhe a uma tentativa de sistematização desses dois mundos. De um lado, existe sempre uma Teoria do Direito vista do ponto de vista de dentro do Estado. Do outro, a teoria do Direito Internacional Público ou Privado.

Até mesmo, no campo dos Direitos Humanos, existe uma separação pífia que cria o Direito Internacional dos Direitos Humanos. De qualquer forma, não encontrei nada que se assemelhe ao Direito Internacional como refundação e institucionalização da moral.

Talvez isso ocorra porque a ligação entre Direito Internacional e Política ser mais intensa por acontecer no cenário de relação entre entes interestatais necessariamente político.

Essas são somente suposições e algo que deve ser objeto de estudo.

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Black Mirror como negação da arte

Recentemente, tenho escrito mais coisas informais no Google Docs do que propriamente aqui. Como eu disse outro dia, há textos que não devem ser compartilhados. Funcionam melhor como diário mesmo.

Entretanto, este aqui, produto de um questionamento rápido, pode vir a calhar. Afinal, a nova temporada de Black Mirror tem estreia prevista para o próximo dia vinte e nove.

De qualquer forma, aguardo o retorno.

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Arrebatamento

Eis um relato mundano: comecei a ler Call Me By Your Name, livro de André Aciman que também dá luz ao filme a que mais quero assistir ainda este ano. Na metade de um dia, devorei boa parte da história. Parei e dei um suspiro. Deixei o .epub pirata de lado hoje e agora escrevo.

Explico: Cada página é como estar com o coração na mão. Larguei o livro hoje na parte mais perfeita que acredito que existe na história. Daí para frente é uma derrocada infernal, aposto. Parei [alerta de spoiler leve] quando Oliver e Elio se preparam para ir a Roma, ocasião em que vão aproveitar as duas últimas semanas de Oliver na Europa.

Esse meu ato é uma tremenda covardia, admito. Não quero mais avançar na história porque sei, com minha intuição, que não pode haver nada mais bonito e romântico do que foi retratado até então. O nascimento de um amor retratado, a olho nu, naquelas páginas. A resistência infantil. Um amadurecimento. A aceitação. O entrelaçamento de almas. Eis o amor.

Essa atitude também esconde uma idealização imensa, eu sei. Por isso resisto à ideia de partir o meu coração lendo uma obra-prima que, inevitavelmente, ao retratar o amor entre duas pessoas de maneira tão cândida, acabará, como alguém que conheço disse sobre a obra, em “uma ferida aberta”.

Call Me By Your Name, até onde li (entenda isto tudo aqui como uma resenha parcial se quiser) empresta muito dos estereótipos dos romances que querem abraçar tudo e todos – aqueles que querem transcender a história e impor uma visão de mundo. Às vezes, dá certo. Às vezes, não dá.

Aqui, funciona: o relato de um surgimento de um amor tão brutal e honesto também ganha traços singelos – algo que, pelo que percebo, o filme deve trazer muito bem.

A ideia de um amor que seja real, imaculado e, mesmo assim, imperfeito – justifica a tarefa incumbida a Sufjan Stevens de criar um mundo dentro desse universo da obra de Aciman. “Mystery of Love” é, como ele tem se proposto a fazer desde Carrie & Lowell, profundamente autobiográfico e, por isso, tão oportuno.

É belo como só Sufjan consegue conceber. Twee, eu ainda diria.

Talvez a razão pela qual eu tenha essa canção, pelo menos durante essas últimas semanas (antes mesmo de começar a ler o livro) é que ela congela essa mesma concepção que tenho do livro.

É dizer: Não parta meu coração.

Nos sonhos de Elio: If you stop, you’ll kill me.


A melhor representação da visão de mundo que é ofertada por Call Me By Your Name está neste pensamento de Elio:

Marzia called that morning while he was getting ready to leave. He almost winked when he handed me the telephone. There was no hint of irony, nothing that didn’t remind me, unless I was mistaken—and I don’t think I was—that what we had between us was the total transparency that exists among friends only.

Perhaps we were friends first and lovers second.

But then perhaps this is what lovers are.

eXperiência

The Old Man and the Sea could have been over a thousand pages long and had every character in the village in it and all the processes of how they made their living, were born, educated, bore children, et cetera. That is done excellently and well by other writers. In writing you are limited by what has already been done satisfactorily. So I have tried to learn to do something else. First I have tried to eliminate everything unnecessary to conveying experience to the reader so that after he or she has read something it will become a part of his or her experience and seem actually to have happened. This is very hard to do and I’ve worked at it very hard.

Ernest Hemingway, The Art of Fiction No. 21, The Paris Review

Por intermédio do Redux aliás.

As canções de 2017

Há algum tempo, eu já não escuto música da mesma forma. Por isso, antes de começar a até mesmo matutar sobre a ideia de escrever estes posts — as listas de minhas canções e álbuns favoritos de 2017, começando com a de canções – eu relutei durante um bom tempo. Não é que não haveria material a ser discutido. O problema surgiria em relação a ter algo a dizer sobre a música que mais teria me impactado durante o ano.

É quase como se eu tivesse perdido, digamos, o amor por isso aqui. Quando eu tinha os meus tenros dezesseis anos de idade, e tinha começado a explorar a internet em busca de música, e também quando comecei a escrever sobre ela em blogs e na companhia de alguns colegas, existia um propósito muito bem definido naquela atividade. A música funcionava como um meio para atingir determinado fim, eu entendo agora. Mas existia, claro, bastante amor e carinho envoltos naquelas atividades. Nas listas de fim de ano feitas quase que como retrospectivas da minha própria vida.

Olhando agora, eram todos exercícios necessários. Parte da minha adolescência foi dedicada a esquadrinhar música e arte em geral. Quase sempre, quando fixo os olhos em alguma resenha minha, escrita há anos, a sensação é de que capturei, com algum sucesso, a essência de uma obra. Agora, vejo que esse não é o trabalho da crítica, que lida muito mais com sensibilidade do que, propriamente, com a analítica pobre de um olhar fulminante que se lança sobre a arte.

Essa percepção, eu noto, vem com amadurecimento mesmo, esse revolvimento da memória. Por isso ainda acredito no potencial e no maravilhamento que existem em recortar a música desse ano tão especial para mim, 2017, em pequenas listas. Esse retrato abaixo é um recorte não só da música nesse ano, mas também de um pedaço de vida — dois conceitos que eu descobri que são indissociáveis.

É que eu finalmente aprendi que a única forma de realmente escutar música não é preocupando-se com o que acontece semanalmente – nisso, o New Music Friday um tanto quanto arruinou a minha experiência – mas também não é necessariamente passiva. O segredo é saber que cada álbum, cada canção, possuem um pedaço de uma narrativa maior que si – os melhores possuem uma centelha divina, eu diria – e que escutar traz um pouco dessas virtudes.

Dito isso, a lista abaixo contém uma parcela dessas centelhas. Canções e pessoas que significaram muito para mim este ano. Quase que como num mosaico muito bonito e lustroso, o que fez o meu ano. E das pessoas que importam para mim.

Por questões de logística, bem como de capacidade e de sanidade mental, a lista contém trinta faixas, mas somente dez — as realmente importantes em 2017 – possuem comentários. Os sagazes entenderão a razão.

Como eu reaprendi em 2017, the owls are not what they seem.

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M.E.S.H. | “Search. Reveal.”

Eu não vou escrever muito a respeito disso — em parte porque não há tempo no mundo para todas as minhas idiossincrasias, em parte porque a canção abaixo não cabe nesse contexto de explanação — mas é o caso de dizer que eu tenho me voltado, cada vez mais, para a música eletrônica porque ela tem o que nenhum outro gênero possui: capacidade de abstração. E Deus sabe que eu tento fugir dos meus sentimentos confabulando a toda hora.

“Search. Reveal” me ajuda nesse processo de confabulação. Não faz sentido algum. Por isso, é tão necessária.

O disco novo do M.E.S.H. sai em novembro. Ainda bem.

O parça Gilmar

Gilmar Mendes teve isso a dizer sobre toda a situação posta entre o Senado e o Supremo Tribunal Federal envolvendo Aécio Neves:

“Cada Poder terá seus critérios, não me cabe fazer esse tipo de encaminhamento. O importante é que nós saibamos que estamos vivendo um momento bastante delicado e a gente não deve acender fósforo para saber ou querer saber se há gasolina no tanque.”

O fato de Aécio Neves, no fundo, ser o responsável por essa “fratura institucional” (nas palavras do Ministro Ayres Brito) é um demonstrativo de como estamos na merda.