Sample

A primeira vez que escutei a parceria entre Ariana Grande e Troye Sivan, notei um sample sublime porém destacado de Tears For Fears, muito embora não tenha visto muita gente comentando sobre a influência direta que vem do grupo. Achei também a canção menor do que esperava do duo. Ao invés de uma explosão, existe em “Dance To This” algo menos dramático. Agora, aprecio a quietude e, ironicamente, o vídeo parece remeter àquela minha primeira expectativa: o clipe retrata tudo o que eu queria que a canção fosse, um encontro bastante empático de duas pessoas que ditam, hoje em dia, do que eu mais gosto no pop.

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Refazendo

O Bicep decidiu lançar um EP, este ano, com umas das melhores faixas do autointitulado de 2017. O vídeo para “Rain” é tão gracioso quanto tudo o que eles já fizeram em matéria de clipe.

Das grandes questões

Terminei de ler A redoma de vidro, de Sylvia Plath, há mais ou menos duas semanas. Rascunhava algumas coisas a respeito da novela fatídica de Plath, que até agora rendeu tão somente uma avaliação na Amazon e um comentário solitário no Goodreads. Admito, a contragosto, que é um livro que merece mais. Um pouco mais.

A redoma de vidro é de cunho profundamente autobiográfico1. Conta a história de Esther, garota e estudante universitária vinda de Boston e que, durante um estágio curricular numa revista feminina, permanece em Nova York.

Em suma: sua vida é esteticamente perfeita. Até que, na volta para casa, adentra um vórtex de desilusão. Recebe uma carta de recusa de uma oficina de literatura e escrita criativa da mesma Nova York com que sonhava há pouco tempo. Na casa da mãe, nos subúrbios de Boston, rememora problemas de relacionamentos e se percebe num mar de dúvidas e com a autoestima em fragilidade. Passa por consultas com um psiquiatra careiro (vinte e cinco dólares a hora) e desinteressado. Seus dias passam. Numa tarde qualquer, tenta ler Finnegan’s Wake, de James Joyce, e para nas primeiras páginas – o homem, admitamos, não é nada fácil. Esther, toda descontente, arrisca o suicídio engolindo pílulas no sótão da casa da mãe.

O colapso da saúde mental de Esther tem um efeito caleidoscópico. Praticamente, trata-se de uma espiral que, em momentos, parece lenta, mas depois se apercebe com uma rapidez implacável. Culpa disso talvez se dê pela escrita afobada de Plath, não acostumada com a prosa. É impossível perceber em qual exato momento a depressão se instalava na mente da moça2, mas depois de algum tempo as coisas ficam claras. É o desânimo dos simples atos, os pensamentos intrusos. Uma redoma que, enfim, se insere ao redor. Uma visão de mundo que o leitor percebe, lá no final, que sempre foi deturpada em relação a si e a uma plethora de outras realidades.

Esther passa por duas clínicas, a primeira pública, a qual envolvia o psiquiatra desinteressado, e a seu mando operavam nela tratamentos de choque. Tratavam-se, de qualquer forma, dos manicômios judiciários, os quais tratavam os pacientes como objetos e não como sujeitos de direito. Após tais experiências, Esther é encaminhada a outra realidade. Sua instalação numa clínica mais moderna e acolheradora é patrocinada por uma escritora famosa da época, a qual tinha tomado conhecimento da situação da universitária por algum artículo de jornal. Lá existe, pelo menos, uma vulgata de progresso e melhora clínica em Esther. Às vezes se está tão na merda que o melhor a fazer é fingir. Ainda que para si próprio. Sylvia Plath, nos seus últimos meses e dias, anteriores à publicação de A redoma, sabia magistralmente disso.

Muito embora essa recapitulação da história de Esther e, até onde sabemos, de Plath, não seja estritamente necessária para tecer o que será tecido, ela é importante para dizer duas coisas: por mais que seja impossível tecer críticas a respeito da forma com que Sylvia desenvolve a narrativa e as crises que levaram Esther a cometer o que cometeu, ao sofrimento a que foi imposta, ora por si mesma e ora por terceiros, é possível, de forma legítima, ir direto ao âmago. Isto é, existe algo que me incomodou profundamente na história da redoma metafórica. E eu acredito que essa irritação, melhor dizendo, venha a existir em razão do caráter sintomático da história.

Vou tentar explicar melhor.

É um tanto quanto óbvio sustentar que, além de ser uma história una sobre uma garota deprimida que tenta recorrer ao suicídio, que Redoma é tanto um ensaio bastante particular sobre um tipo de flagelo, o flagelo dos anos cinquenta na América, das aparências, da frustração. A literatura (e tenho minhas dúvidas quanto ao fato do que Sylvia fez aqui ser, realmente, literatura, mas divago enfim) é, ao mesmo tempo, una – já que responde a uma história específica – e universal, já que ressoa e repercute infinitamente. Não sei dizer se existem mensagens3 propriamente ditas na escrita de Plath nesta prosa, mas sei que parte do apelo do que é construído pelo livro vem dos panos de fundo – melhor dizendo, do cenário vivo da dicotomia entre metrópoles e subúrbios, normalidade e doenças, percepção e embotamento e, novamente, o mundo de aparências.

Ocorre que a minha irritação vem do fato de Plath ser contaminada pelo próprio mal que ela tanto critica – o mundo de fantasia que o progresso e tecnologia proporcionam, mas que, num último momento, levaram alguém também superficial à loucura. É que A redoma de vidro trata a depressão de maneira, estritamente, material quando deveria ser vista como a doença do espírito que é.

As causas do descontentamento de Esther são todas colocadas na mesa como advindas do mundo material – a perda de uma oportunidade, a monotonia, a incapacidade se lidar com o eu, com o sozinho, com o absurdo da existência4. E falando em ficar sozinho, Esther é patologicamente incapaz de estar e ser, dois estados de espírito completamente distintos. O silêncio é mortal dentro de sua mente.

É aí que vejo em A redoma de vidro uma grande ironia, talvez não intencional, o que acabe recaindo nos outros romances desiludidos de escritos fatídicos do século passado: há uma grande vontade e um grande ímpeto (quase uma coragem descomunal) em se lançar uma Grande Crítica em face de um intelectualismo e de uma sociedade, uma intelligentsia. A literatura como arma – o pior tipo de literatura. Plath quer escrever sobre a falta de percepção no mundo utilizando de sua anti-heroína como brinquedo enquanto desprovida de sua própria sensibilidade. O resultado é um livro mundano sobre o mundo.

Na redoma, não há muito a perquirir sobre a depressão porque, enfim, não há muito a ser averiguado. As razões para uma tentativa de suicídio, invocadas por um mundo ingrato e materialista, estão todas ali esparramadas pelas páginas do livro. Clarividentes.

Com o perdão do clichê, a metáfora não chega a riscar a redoma que, nas palavras de Plath, persiste em existir na espreita. A redoma, enfim, trata de grandes questões que, no manejo de Plath, tornam-se diminutas.


  1. The Bell Jar foi publicado, sob o véu de um pseudônimo, um mês antes de Plath cometer suicídio em 1963. 
  2. Falo aqui em moça para descrever tanto Esther quanto Plath. Muito devido às razões já mencionadas. 
  3. Tentando não ser muito pedante, mas não sou fã, particularmente, de McLuhan e a sua teoria de que a forma e o veículo são tudo que importa
  4. No final das contas, a todo momento enquanto lia a prosa de Sylvia Plath, recordava e tentava fazer conexões com O Mito de Sísifo, de Camus, e que pode ser lido como uma introdução à sua filosofia do absurdo, mas também (e eu prefiro que seja visto assim) como um questionamento sobre as razões do suicídio. Nada é tão simples como parece. 

Falsidade

Eu fico envergonhado em admitir que só tenho reconhecido isso recentemente, mas é que, para mim, nesses últimos tempos, um tipo de música pop tem se destacado como particularmente falsa. É a música do falsamente grandioso, do espirituoso, do descarado, do algo que quer ser transcendental que fica lá na espreita e, praticamente, na borda da loucura e, quem sabe, do autismo.

Sem mais delongas:

Lentes

For Beyoncé and JAY-Z, everything is experienced through the lens of money. This is how they see art, which becomes reduced to private property, a set piece, a status symbol. Everything that’s potentially meaningful about art becomes lost for them, whether it’s in JAY-Z’s tepid listing of artists in “Picasso Baby” (from Magna Carta Holy Grail) and his subsequent performance art takeover of New York City’s Pace Gallery, or the “APESHIT” video, which essentially amounts to being the most elaborate museum selfie in history. Indeed, like many today, they care more about who stands before an artwork than what the artwork itself is trying to tell us. The Carters’ fetishization of art and its museums is emblematic of their commitment to the status quo. Art is supposed to be thought about, contemplated, criticized — it’s supposed to point toward ways that we can live better lives. To simply put it on the shelf and take photos of it is to affirm all the history that’s gone into its creation and to recognize none of the social issues that it once aspired to give voice to and change. To be sure, this is also a condemnation of museum culture in general, which the “APESHIT” video glorifies, uncritically, to no end.

A resenha para Love Is Everything ainda está engavetada na seção de rascunhos, mas digamos que esta aqui do TMT é o que eu queria dizer sobre o disco (e como de fato disse quando postei aquele pequeno comentário).

Tenho um rascunho melhor guardado sobre o disco da Beyoncé com JAY Z, mas com a vinda da resenha bajuladora da Pitchfork, tenho algo a dizer de maneira mais imediata: já esperava por algo assim do site, a congratulação direta por um orgulho e pelo sentimento de pertencimento de uma elite que não é bem elite e, pensando bem, nunca será uma verdadeira elite (Beyoncé e JAY Z teimam em insistir nisso, mas só chegam no topo por intermédio de uma ostentação ofensiva, nunca espiritual).

As faixas de Love Is Everything servem como suporte a uma tendência, a tendência à reação, à simples reação de fazer música com algum ímpeto. A reação de uma resposta de um comentário político, a reação a qualquer evento recente, a reação a um mundo materialista e espirituoso. A necessidade de uma autojustificação e uma ostentação. Um luxo de disco que, pelo que vejo, não tem muita razão de existir senão para o agora. E isso não chega a ser transcendental.

Às sete horas da manhã, a morte

A minha semana começou bem cedo, comigo esperando as portas da clínica abrirem para que eu pudesse realizar meu exame de sangue e, tão logo, zarpar dali para o escritório (de onde escrevo isto aqui).

Quem atendeu foi uma moça nem tão simpática, nem tão nebulosa para o horário. Simplesmente uma moça.

Adentrei com um aceno meio cabisbaixo e fiquei aguardando até que o meu nome fosse chamado. Demorei para perceber que, logo ali, a televisão da sala de espera estava ligada, às sete horas da manhã, sintonizada na Record, entre todos os canais do mundo. Não me importei o suficiente para saber qual a programação em específico de início.

Só sei que minha atenção foi captada, dentro todos os outros pensamentos na minha cabeça – muito deles prazos – virando meus olhos em direção à tela porque um repórter, sujeito bem apessoado e que parecia gostar de estar ao ar livre nas ruas de São Paulo naquele bendito horário, esperava, em vão, a abertura de uma delegacia de polícia.

Ocorre que um enigma policial recente, o desaparecimento de uma menina, havia sido solucionado pelo menos em parte. Não se tratava de um sumiço comum e qualquer, mas sim de um homicídio. Nisso a delegacia estava sendo vigiada pelas câmeras atentas dos técnicos da reportagem. O repórter a céu aberto entregava detalhes e o apresentador dava seus palpites, todos corroborados por (i) uma Procuradora de Justiça, (ii) o repórter que esperava diante da abertura da delegacia que tratava do caso e (iii) um terceiro homem, um mero figurante palpiteiro.

Pelo que o apresentador conseguia conjurar do caso, tratava-se de um crime de vingança. “Não é crime de moleque não, é crime de homem”, ele emendava, refutando a hipótese de um delito cometido por qualquer possível namorado da vítima.

A todo momento, eu via aquilo com um distanciamento agradável. O paradoxal naquele tratamento televisivo a um evento que clama por uma noção bastante particular de justiça é que, por mais que as imagens mostradas tenham investido toda a sua catarse na forma de contar a história, o máximo que se pode extrair daquilo tudo é mera exploração. Uma exploração interesseira de um episódio em que faltavam explicações. Há algo de tremendamente pornográfico na morte que o brasileiro vislumbra muito bem – para o bem e para o mal.

Existe um conforto muito grande, para mim, em admitir a tese de exploração mesquinha porque isso me permite dizer que não é possível que, nesta terra cuja seleção jogou ontem, pode-se abarcar esse tipo de psicopatia nesse horário. Existem horas específicas para estimular a loucura e a mesquinharia. O narcisismo de investigadores de polícia sob o pretenso manto do esclarecimento e da opinião pública.

Não é possível.

No fundo, enquanto todos na tela trocavam palpites, loops de uma moça devastada. Possivelmente, a mãe da menina.

O lado mais cínico da minha personalidade insistia em acreditar que a mãe olhava de relance para a câmera e fingia um desmaio caindo nos braços de um homem. Afastei o pensamento tentador, mas cruel. Não era hora de perder a fé nas pessoas.

A morte da menina gerou um regojizo naqueles envoltos na situação. Digo, o apresentador, o repórter, a equipe. Havia o que se noticiar, o que especular, diante de uma plateia às sete horas da manhã de uma segunda-feira. Um tipo de celebração psicótica que justifica acampar defronte a uma delegacia de polícia. A morte, como em DeLillo, faz com que cometamos atos impensados. Como prestar atenção a uma televisão, às sete horas da manhã, e precisar escrever sobre isso sob pena de ficar louco.