Quinta-feira @ Biblioteca, 10h20

Na última quinta-feira de manhã, antes de abraçar o feriado, fui à aula com uma certa falta de paciência pelas coisas do mundo. Uma prova me aguardava. Depois dela, sentei num pátio da faculdade esperando as duas últimas aulas do dia. Acontece que acabei perdendo a hora e o professor, um cara bem assenhoreado e dono de si (das antigas), já tinha adentrado a sala. Não queria desafiar a autoridade e arriscar um sermão na frente da sala quando adentrasse a sala dez minutos após o sinal ter tocado. Decidi fazer o sensato: fui à biblioteca ler algo. Um amigo mais esperto já tinha pego as coisas dele e vazado. As minhas permaneciam na sala, as quais foram, gentilmente, devolvidas por uma amiga. “A semana é Santa. Eu não mereço isso”, esse colega disse antes de ir. Sábias palavras.

A biblioteca era o que me restava. Gosto dos periódicos internacionais, os quais, por política da instituição, não podem ser retirados, o que me obriga a sentar em qualquer cadeira do andar inferior e folhear lá mesmo. Os temas são alienígenas para qualquer estudante de Direito acostumado (e acomodado) pela temática ofertada pela grade usual dos cursos. Num relance, olhando as prateleiras como quem abre a geladeira a cada minuto, me deparei com o New England Law Review. Um volume do inverno de 2014, ele continha um artigo que atiçou a curiosidade. Comentando sobre a inconstitucionalidade de uma decisão da Suprema Corte americana, mediante a qual se concedeu acesso, para o Prosecutor’s Office local, de tweets de um sujeito que havia atrapalhado manifestações do Occupy Wall Street meses antes. Detalhe: sem a expedição do mandado judicial específico para tanto, algo que é possível dada a legislação infraconstitucional que autoriza esse tipo de medida em hipóteses muito, mas muito excepcionais mesmo.

A dita decisão seria inconstitucional porque o usuário tem uma reasonable expectation of privacy naturalmente, direito reconhecido expressamente pela Constituição, cabendo ao Congresso americano editar leis que privilegiam esse direito. Tweets não contém somente textos ou imagens. São, verdadeiramente, blocos de informações que possuem, como parte de si (portanto dissociáveis), metadados que carregam dados de localização e endereços IP que, uma vez em mãos erradas, podem entregar a exata posição de um usuário e, quando postos em cronologia, entregam a série de deslocamento de uma pessoa tal qual um aparelho GPS faria.

Um problema surgiria entretanto. A Suprema Corte americana não interpretou os fatos dessa maneira. Lançou mão da Quarta Emenda e do marco regulamentário informacional de lá (semelhante ao Marco Civil da Internet daqui) como se a mencionada reasonable expectation of privacy somente fosse defensável caso ela fosse violada mediante o exercício de força física – um entendimento um tanto quanto inaplicável à natureza não corpórea da internet, pelo que sei. Entretanto, o marco regulatório – Electronic Communications Privacy Act– foi editado em 1986. A última vez em que foi emendado se reporta a 2006, quando o Facebook ainda era infante e o Twitter sequer havia sido fundado.

A legislação não pode ser aplicada da forma com que foi concebida. Isso é flagrantemente óbvio. Trinta anos atrás, era impossível pensar em redes sociais, celulares como se fazem hoje e até mesmo a dita “internet das coisas”, um fenômeno atualmente palpável.

A decisão, mesmo que não seja inconstitucional por violar o direito à privacidade e, mais fundamentalmente, o direito a estar e permanecer sozinho (de ser deixado sozinho, pai desse direito à privacidade), é perigosa: é temerária porque põe em risco, realmente, o direito à liberdade de expressão. Ao ser colocado contra a parede e ver obrigado, judicialmente, o Twitter a fornecer as informações, o usuário (Malcolm Harris) se viu tolhido de seu direito de liberdade de expressão – junto com a vida, uma das coisas mais fundamentais e sagradas de que se tem notícia. A democracia se alimenta disso tudo.

O artigo está aqui, e encorajo que você o leia, provando que se aprende mais durante uma manhã sentado lendo apaixonadamente do que em um semestre inteiro talvez. Ou durante uma vida inteira.

Inteligência e burrice

Algumas considerações do Facebook que, pensando melhor, deveriam ter parado aqui.


Há alguns dias eu tava pensando sobre o que faz de alguém burro ou inteligente. Não me perguntem a razão por trás desse questionamento, mas talvez assistir a Evangelion numa tacada só tenha influenciado essa série de pensamento.

É que a maioria das pessoas associam inteligência ou burrice a alguma capacidade bastante especial. A capacidade de associar fatos, números e coisas que podem ser quantificadas. Essa é uma asserção errada: a capacidade ou incapacidade para a realização dessas coisas bem específicas da vida são somente desdobramentos da personalidade de uma pessoa.

Inteligência tem a ver com o que se denomina consciência de si ou, para os mais incautos, autoconhecimento mesmo. A capacidade de se perceber como pessoa e ter consciência disso – seu lugar, suas particularidades, etc. Todo que envolve ser efetivamente alguém e (aqui está o elemento fulcral) saber mesmo disso.

É por isso que é possível enxergar a burrice mesmo naquelas pessoas que dominam determinadas áreas, mas tem um conhecimento e uma consciência tal porca de si que beira a alienação. Seja por meio de distrações fúteis, seja por qualquer outra coisa.

É que ter consciência de si requer coragem. Por isso o burro é sempre aquele que gosta de se enganar.

Algo importante: eis algo que escrevi num outro blog há algum tempo e que acredito, agora, que serve mais aqui do que em qualquer outro lugar. Enfim, eis o que tive a dizer nessa oportunidade.


No começo da semana, tive a oportunidade de viajar para ter uma reunião com alguns clientes de bem longe (Goiás, por assim dizer) de um caso que só agora pode vir a possuir algum deslinde favorável – um inventário bastante litigioso e em trâmite há mais de três décadas.

Sentei, num dado restaurante, ao lado de uma cliente, uma senhora que aparenta beirar os cinquenta anos de idade. Conhecia a mulher há pouco mais de meia hora e ela já contava as peripécias dela.

Em determinado momento, a conversa rumou a tópicos acerca da inteligência ou esperteza e como pessoas têm ou não têm esses determinados traços de personalidade. “Sabe, Danilo, eu sou esperta, mas não sou inteligente como você. A maioria das pessoas não têm nenhuma dessas características”.

“Mais difícil ainda é encontrar gente esperta e inteligente”. Talvez ela quisesse falar da esperteza e inteligência em igual medida.

A gente, naquele momento, não parou para dissecar o significado da palavra “esperteza”. Demoraria muito e nós nos perderíamos em conceitos. Simplesmente não era a hora.

Mas a conversa vai ficar guardada. E como vai.


Post scriptum: Eu adorei essa mulher. Quero ser como ela quando crescer.

Voltando

O WordPress diz que eu não escrevo por esses cantos desde 2015. Optei pelo Tumblr e por algumas crises de consciência que foram dirimidas lá no Facebook. Entretanto, Deus sabe que o Tumblr e nem o Facebook servem lá muito bem para essas coisas — a escrita mais intimista e nua da alma. A gente precisa se acostumar com isso. Mesmo que por “isso” você acabe interpretando tudo e absolutamente nada ao mesmo tempo.

Sim, é complexo.

Volto para cá porque me peguei pensando, desde o começo do ano, sobre qual a razão suprema da nossa necessidade de escrita e, ainda mais, se realmente existe alguma razão pra escrever (além do preenchimento eventual de um ego qualquer).

Sempre existiu uma urgência, para mim, em organizar as coisas e expô-las. Tentar entender arte (música, filmes e livros) e como eles conversam comigo e com o meus arredores sempre foi um objeto de fascínio. Mas essa é uma tarefa introspectiva e que requer um tanto de coragem.

Comecei a escrever sobre música há pelo menos sete anos e essa empreitada teve, ao longo do caminho, altos e baixos. Recentemente, tenho começado a duvidar do meu talento e da minha capacidade — eu sei que o Pretty Much Amazing e, principalmente, o The Singles Jukebox sempre estarão lá para quando eu quiser colocar a minha alma em algum disco ou alguma canção em específico, mas enfrentar a tela em branco, todo dia, tem sido um agravante num processo emocional bastante complicado.

Isso acontece porque escrever sobre qualquer coisa requer autoconhecimento. Isso pode soar, acertadamente, como um clichê extremamente batido. Porém, clichês sempre carregam em si uma carga de verdade difícil de ser ignorada. Falo da coragem de saber exatamente do quanto esconder e revelar durante os poucos minutos que alguém passa, na frente do computador, digitando um texto complicado e intimista. É sobre ter o que revelar enfim — experiência e intimismo, conforme dito.

Isso chega a revelar, ainda, praticamente uma síndrome de impostor. Mais uma derrota na frente do computador com o cursor piscando e o medo de ter de onde começar. Escrever se torna, então, uma tarefa muito parecida com a de mover montanhas com a própria mente.

Some-se a isto os deveres e as atribuições da vida que requerem o zelo mental de um ourives. E aí algo engraçado acontece: diante dessas infinitas turbulências, a necessidade da escrita aparece como um salvo-conduto: escreve-se não porque alguém realmente quer; escreve-se porque é (absolutamente) necessário. Até porque a ordenação mental é a coisa mais importante nessa vida.

Volto aqui, portanto, nesses termos. A ordenação mental — saber o que fazer, no que e em quem confiar, o que realizar, pelo que lutar – falam sempre mais alto. Não foram sempre essas razões pelas quais eu costumava escrever, mas são agora as que mais me motivam a sentar na frente de um monitor e continuamente dedilhar contando histórias ou só formando frases.

Agora reparo que as frases vêm, hoje, num fluxo muito mais intenso do que antigamente — textos críticos por aqui traziam uma dor similar a um parto. Ideias não compareciam. O terreno era inóspito. É um sinal, os menos incautos diriam. Que assim seja.

Feliz Natal

Há uma espécie de solidão que os feriados nos proporcionam que só os mais desencantados conseguem perceber — ou, para o desespero de um Guenon (e seus seguidores) — sentir a presença. É a solidão entre as pessoas que mais perambulam do que propriamente ficam em algum lugar específico.

As ruas ficaram vazias — talvez por causa do horário (nove horas da manhã), talvez por causa da data especial, talvez pelos dois — o comércio fechou e não havia uma alma por onde eu percorri meu trajeto cotidiano. O que eu percebi, então, ao ver as ruas desertas com pessoas festejando e comemorando algo dentro de suas casas com seus familiares foi que o Natal, mais que qualquer outra data comemorativa, nos apresenta um teste. Um teste da tradição e das almas boas.

O Natal não foi feito para pessoas perambularem obviamente. Este não é o propósito dele. Ele lembra comunhão afinal de contas. O maior teste é então preservar este último resquício de união — de perceber que a solidão só existe para aqueles que negam as festas — e a comunhão principalmente.

Schopenhauer entenderia.

Coleções

Há algo sobre as vésperas de grandes acontecimentos que funcionam, quase sempre, como preâmbulos para um acontecimento que vem a seguir. Nesse caso, claro, não falo do fato — óbvio por si só — da véspera que preconiza o Natal inevitável em toda sua glória, mas de um simbolismo pulsante que vem de datas nada aleatórias.

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Este disco tem acompanhado muito de minhas decisões ultimamente. Para o bem ou para o meu que elas escondem, eis um bom remédio.

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O final de ano para mim — pelo menos, o de agora — guarda sempre um pouco de euforia por aqui. Particularmente, ando mais ansioso que o normal: a perspectiva de escrever para publicações bem maiores que o número de pessoas que lê o que eu escrevo geralmente é tão incrível quanto estarrecedora. Lá vem uma noção de responsabilidade com a qual nunca aprendi a lidar. Tenho algumas ideias a serem colocadas em prática em 2015. Quem sabe.

Retomada

Para quem lê este pedaço (ínfimo, vamos lá) da internet sabe que este site já teve mais recomeços do que visitantes únicos desde que comecei este blog em 2011. Mas sempre que eu me desentendia com o Tumblr (melhor dizendo: toda vez que eu me desentendia com as pessoas e com o modo do Tumblr) eu sempre voltava para esta url. Ela, de alguma forma, seria um retrato melhor da escrita e dos colecionáveis que eu catava (e catalogava) colocando tudo aqui.

O Tumblr ainda é uma das formas mais bonitas que se tem hoje na internet de colecionar links nonsense. Admitemos: aquilo é um paraíso do dadaísmo. Mas o WordPress ainda é uma casa mais bem arrumada do que tudo o que eu já presenciei. E o Medium é o local para designers de tipos.

Então aqui está dado um ultimato: uma volta à forma clássica de blog. Mais uma vez.

Ida

Uma japonesinha, com um semblante arrogante, sentou ao meu lado no ônibus enquanto ia para casa. Digo que depois de alguma relutância, ao ver que todos os assentos estavam ocupados, e depois de analisar cuidadosamente as situações (japoneses têm disso, dizem). Lembrei desta imagem por algum motivo (acima).