Decaimento

Quando eu era estagiário da Advocacia-Geral da União durante o terceiro ano da faculdade, convivi com as pessoas mais excêntricas dentro daquela Procuradoria. Uma delas era meu chefe. Ele se orgulhava em conter, dentro do servidor daquela Seccional (bem como em backups pessoais muito bem organizados) toda e qualquer petição, ação ou documento utilizado por ele desde que entrou nos quadros da instituição. O homem era (ainda é, acredito) um crânio.

Numa dessas conversas, eu perguntei sobre a necessidade disso. Confesso que não acreditei e não dei muito crédito à explicação dele. Lembro de ter pensado na maluquice de tudo aquilo.

Algo que ele disse, porém, chamou a minha atenção. Ele disse, enfaticamente, que a maior dificuldade, com o passar do tempo, na hora de lidar com aqueles milhares de arquivos, é a compatibilidade. Explico. É que, por mais que os arquivos originais possam muito bem continuar sendo os mesmos, guardados naqueles HDs obsoletos, o software não. Ele sempre muda. Sendo assim, para abrir e editar um arquivo, um documento de 1995 por exemplo, as coisas se complicam ainda mais.

Lembro dessa fala dele — um tanto quanto apocalíptica quando li que todo o acervo de sons da Biblioteca Britânica estava ameaçado justamente por uma questão, quem diria, de compatibilidade.

A tecnologia é uma benção. Exceto quando ela ferra com tudo.

 

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Um tormento chamado ansiedade

A cada dia que passa, minha certeza só é uma: a existência é, em si, modernamente, ansiedade. Por isso esse texto aqui de Nitsuh Abebe na New York Times Magazine é tão enfático num diagnóstico bastante necessário.

Lê-lo é uma dádiva. “Anxiety, after all, need not be rational, need not be coherent, can contain multitudes”, como ele diz.

 

Trauma

A resenha de domingo da Pitchfork de hoje foi sobre a obra-prima do Tears for Fears, Songs From the Big Chair. Uma raridade nesse site:

Then, Tears for Fears turned up in an unlikely place: Donnie Darko, a film that subverts ’80s teen movies. “Head Over Heels” is memorably included during a slow-motion montage, but Tears for Fears were mostly rediscovered by younger audiences thanks to Michael Andrews and Gary Jules’ cover of “Mad World.” By peeling away all the circuitry and flash of the original, replacing the gizmos with mostly non-electronic instruments, and slowing the tempo, Andrews and Jules exposed “Mad World” as the post-9/11 emo ballad it was perhaps destined to be. As the 2000s progressed, you’d hear Tears for Fears incrementally more often. In 2008 Kanye West sampled the chorus of The Hurting’s “Memories Fade” on “Coldest Winter,” from 808s & Heartbreak, coincidentally about an artist trying to deal with the death of his mother.

Today you’ll hear “Everybody Wants to Rule the World” all over the place—it’s a staple of classic-rock radio, pharmacies, bars, and parties. But at its core the song is still dealing with Janov; with how, ultimately, what human beings want is control, and the inability to control your own life is misdirected into a desire to overpower other people. It’s a constant with Songs From the Big Chair: interior drama is construed as being about collective suffering. Personal chaos is universal. Welcome to your life. There’s no turning back.

Ainda há salvação. #pray4p4k

[Julius Krein]

Mr. Trump once boasted that he could shoot someone in the street and not lose voters. Well, someone was just killed in the street by a white supremacist in Charlottesville. His refusal this weekend to specifically and immediately denounce the groups responsible for this intolerable violence was both morally disgusting and monumentally stupid. In this, Mr. Trump failed perhaps the easiest imaginable test of presidential leadership. Rather than advance a vision of national unity that he claims to represent, his indefensible equivocation can only inflame the most vicious forces of division within our country.

Palavras de quem, um dia, apoiou esse homem.

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Post scriptum: Continuando a falar desse homem, gostei bastante do American Affairs, publicação que ele começou mais cedo este ano. Eis algo sobre o conservadorismo e sua corrupção – claro, pela economia.

 

Algo para os seletos

Eu vivo vasculhando o Atlas Obscura desejando, de longe, as viagens que eu pretendo fazer um dia. O site, ainda bem, tem uma coleção de textos variando dos mais bizarros aos mais comuns — dependendo do que você considera como comum. Esse texto aqui sobre telepatia, cachorros e União Soviética, bem como paranoia cientificista e comunistas é uma das coisas mais doidas que vejo em algum tempo.

Eu queria estar lá

O New Yorker fez um retrato apaixonante do que foi Carly Rae Jepsen acompanhada de uma orquestra, nesse final de semana, em Toronto.

Em suma: eu queria estar lá.

The orchestra began, suddenly, in a way that resembled star formation—dense clouds of melody floating in suspension and then, under piccolo flurries and timpani rolls, fusing into one. A sax line emerged, neon with yearning, and Jepsen came out to sing “Run Away with Me,” unprotected by reverb and curling her voice tight around the notes. She glittered in her peculiar, brilliant, half vacant way. Jepsen is, for a pop star, a remarkably unassuming presence—she always seems like a conduit for something, rather than the thing itself—and though she managed the evening’s performance appropriately, like a diva, with a gown change and Streisand gestures, it seemed to me as if she could’ve been singing in front of her bedroom mirror, or in a dream. It just so happened that she was in front of a full symphony orchestra, facing a crowd of people who would eventually jump to their feet and sing along and dance like they, too, were alone in their rooms. The orchestra was heartbreaking, restrained by the simplicity of the songwriting and yet inherently hyperbolic. The violins took up the moments where, normally, on her albums, you’d hear Jepsen ad-libbing with interjections. Instead of a “Hey!” their bows would strike, like an epiphany, a burst of sweetness outside the realm of words.