O tempo foi superado (ou: Eu sou o que Sou)

Lembrei-me de um incidente – mais que um incidente – envolvendo meu filho Christopher. Em março de 1974, durante o tempo em que VALIS tomou conta de mim, teve o controle de minha mente, eu havia realizado uma iniciação correta e complexa de Christopher às fileiras dos imortais. O conhecimento médico de VALIS havia salvado a vida física de Christopher, mas VALIS não havia terminado por ali.

Essa foi uma experiência que guardei com carinho no meu coração. Ela foi realizada com profundo sigilo, ocultada até mesmo da mãe do meu filho.

Primeiro eu havia preparado uma caneca de chocolate quente. Depois, um cachorro-quente no pão com os molhos típicos; Christopher, ainda bem novinho, adorava cachorro-quente e chocolate quente.

Sentado no chão do quarto do Christopher com ele – ou melhor, VALIS em mim, como se fosse eu – comecei a jogar um jogo. Primeiro, segurei de brincadeira a caneca de chocolate no alto, sobre a cabeça de meu filho; depois, como se fosse por acidente, deixei cair um pouco de chocolate em sua cabeça, em seus cabelos. Rindo, Christopher tentara limpar o líquido; eu, naturalmente, o ajudei. Curvando-me em sua direção, murmurei:

“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

Ninguém me ouviu, a não ser Christopher. Agora, ao limpar o chocolate quente de seus cabelos, inscrevi o sinal da cruz em sua testa. Eu o havia batizado e agora o confirmava; foi o que fiz, não pela autoridade da igreja, mas pela autoridade do plasmado vivo em mim: o próprio VALIS. Em seguida, eu disse ao meu filho: “Seu nome secreto, seu nome cristão é…”. E eu lhe disse qual era. Apenas ele e eu sabemos; ele, eu e VALIS.

Em seguida, peguei um pedaço de pão do cachorro-quente e estendi-o à minha frente; meu filho – ainda um bebê, na verdade – abriu a boca feito um passarinho, e eu coloquei o pedacinho de pão dentro dela. Era como se nós dois estivéssemos compartilhando uma refeição; uma simples, comum e cotidiana refeição.

Por algum motivo, parecia essencial – crucial, até – que ele não desse nenhuma mordida na carne do cachorro-quente. Carne de porco não podia ser comida nessas circunstâncias; VALIS me transmitira esse conhecimento necessário.

Quando Christopher começou a fechar a boca para mastigar o pedaço de pão, dei a ele a caneca de chocolate quente. Para a minha surpresa – ele era tão novinho que ainda costumava beber em mamadeira, nunca numa caneca -, ele estendeu as mãos ansioso para pegar a caneca; quando ele a pegou, levou-a aos lábios e bebeu dela, eu disse:

“Esse é o meu sangue e este é o meu corpo”.

Meu filhinho bebeu, e peguei a caneca de volta. Os maiores sacramentos haviam sido realizados. O batismo, depois a confirmação, e depois o maior sacramento de todos, a Eucaristia: o sacramento da Ceia do Senhor.

“O Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, que foi derramado por vós, preserva vosso corpo e conduz à vida eterna. Tomai e bebei em memória de que o Sangue de Cristo foi derramado por vós, e dê graças.”

Esse momento é o mais solene de todos. O próprio sacerdote se torna Cristo; é Cristo que oferece seu corpo e sangue para os fiéis, por um milagre divino.

A maioria das pessoas entende que no milagre da transubstanciação o vinho (ou o chocolate quente) se torna o Sangue Sagrado, e a hóstia (ou o pedaço de pãozinho de cachorro-quente) se torna o Corpo Sagrado, mas pouca gente, mesmo dentro da igreja, percebe que a figura que se põe diante deles segurando o cálice é o Senhor deles, vivo agora. O tempo foi superado. Estamos de volta quase dois mil anos; não estamos em Santa Ana, Califórnia, EUA, mas em Jerusalém, por volta de 35 A.C.

O que eu havia visto em 1974 quando vi a superposição de Roma antiga e da Califórnia moderna consistiu em um testemunho real do que é normalmente visto pelos olhos internos dos fiéis apenas.

Minha experiência de dupla exposição havia confirmado a verdade literal – não meramente figurativa – do milagre da Missa.

Como eu disse, o termo técnico para isso é anamnese: a perda do esquecimento; ou seja, a lembrança do Senhor e da Ceia do Senhor.

Eu estava presente naquele dia, na última vez que os discípulos se sentaram à mesa. Pode ser que vocês creiam em mim; pode ser que não. Sed per spiritum sanctum dico; haec veritas est. Mihi crede et mecum in aeternitate vivebis.

Meu latim provavelmente é cheio de defeitos, mas o que estou tentando dizer, mal e mal, é: “Mas falo por intermédio do Espírito Santo; esta é a verdade. Crede em mim e vivereis comigo na eternidade”.

Nossa bagagem apareceu; entregamos nossos tíquetes de bagagem para o guarda uniformizado, e, dez minutos depois, estávamos seguindo de carro para o norte na rodovia para Santa Ana, para casa.

Um dos trechos mais bonitos de Valis, uma das obras-primas de Philip K. Dick. Talvez eu escreva sobre o livro daqui a algum tempo. Desde já, é uma das leituras mais iluminadas que já tive.

 

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Reflexões sobre o estranho

Gothic criticism, of which there is a vast boiling vat these days, has been rendering down the ectoplasmic energy of “spectrality” into sound bites for 25 years, while critics seem to arrive pre-loaded with cookie-cutter cribs from Freud’s “The Uncanny,” in which they laboriously explain yet again that the term unheimlich means rather more literally the unhomely in German, but that the “homely” is housed inside the “unhomely,” the outside in the inside, the strange in the familiar. Right at the start of his book, Fisher acknowledges that Freud’s unusually chaotic essay is full of brilliant possibilities but ends with an interpretation “as disappointing as any mediocre genre detective’s rote solution to a mystery.” This wonderfully provocative dismissal sets Fisher up to articulate an alternative set of terms outside ossified Gothic criticism and dictates the wholly new conceptual structure of his book.

The uncanny, Fisher says, puts the “strange within the familiar” and “operates by always processing the outside through the gaps and impasses of the inside.” In other words, for all its interest in boundary breaches, it is still centered on the self. The weird and the eerie work at this from the other direction, Fisher suggests: “they allow us to see the inside from the perspective of the outside.” The weird is a disturbing obtrusion of something from the outside in. It is the insidious intrusion, the confounding juxtaposition, the thing found in the wrong place. As Lovecraft put it in his essay “Supernatural Horror in Literature,” the weird is “a certain atmosphere of breathless and unexplainable dread of outer, unknown forces.” Lovecraft’s fictions, at their evocative best, are about a steady dethronement of anthropocentric models. This explains the embrace of Lovecraft’s weird realism by philosophers challenging phenomenological paradigms, or leaning toward the radical end of “Thing Theory,” where things escape routine imprisonment inside the implicit hierarchy of the subject/object binary.

The eerie, however, is Fisher’s original extension of this idea. He takes the eerie from lazy, everyday usage and gives it conceptual rigor: places are eerie; empty landscapes are eerie; abandoned structures and ruins are eerie. Something moves in these apparently empty or vacated sites that exists independently of the human subject, an agency that is cloaked or obscure. He wonders: What kind of thing makes an eerie cry? Because it rises up from the outside, and remains there, it resists simple hermeneutic interpretation.

Sobre Mark Fisher e sua última obra — sem nenhum complexo de adulação — numa análise do LA Review of Books.

The Idiot

Not that Kitsey and I weren’t very different people, as well, but that was all right: after all, as Hobie had pointed out sensibly enough, wasn’t marriage supposed to be a union of opposites? Wasn’t I supposed to bring new undertakings to her life and she to mine? And besides (I told myself) wasn’t it time to Move Forward, Let Go, turn from the garden that was locked to me? Live In The Present, Focus On The Now instead of grieving for what I could never have? For years I’d been wallowing in a hothouse of wasteful sorrow: Pippa Pippa Pippa, exhilaration and despair, it was never-ending, incidents of virtually no significance threw me to the stars or plunged me into speechless depressions, her name on my phone or an e-mail signed “Love” (which was how Pippa signed all her e-mails, to everyone) had me flying for days whereas—if, when phoning Hobie, she didn’t ask to speak to me (and why should she?) I was crushed beyond any reasonable prospect. I was deluded, and I knew it. Worse: my love for Pippa was muddied-up below the waterline with my mother, with my mother’s death, with losing my mother and not being able to get her back. All that blind, infantile hunger to save and be saved, to repeat the past and make it different, had somehow attached itself, ravenously, to her. There was an instability in it, a sickness. I was seeing things that weren’t there. I was only one step away from some trailer park loner stalking a girl he’d spotted in the mall. For the truth of it was: Pippa and I saw each other maybe twice a year; we e-mailed and texted, though with no great regularity; when she was in town we loaned each other books and went to the movies; we were friends; nothing more. My hopes for a relationship with her were wholly unreal, whereas my ongoing misery, and frustration, were an all-too-horrible reality. Was groundless, hopeless, unrequited obsession any way to waste the rest of my life?

Donna Tartt, The Goldfinch

P.S.: Feliz ano novo, aliás. Entre tantas outras coisas, tenho planos para a manutenção deste blog para além de um depósito de citações ora mortas. Enquanto que o meu tumblr vai se dedicar mais a crítica para outras publicações, este recinto quer ser mais pessoal e menos extravagente — diga-se: exibicionista — que o companheiro de endereço diferente.

Vi no Tumblr ontem. É de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. Uma pessoa que respeito muito reblogou ontem no site em questão, e, prontamente, rebloguei também. Não tive como esconder de eu mesmo um riso involuntário, como se a maior das ironias tivesse me atingido. Você transformou ódio em “sabedoria”, porém, Danilo.

Deus existe

Na entrada do caminho do pântano, puseram um cartaz que dizia Macondo e outro maior na rua central que dizia Deus existe. Em todas as casas haviam escrito lembretes para memorizar os objetos e os sentimentos. Mas o sistema exigia tanta vigilância e tanta fortaleza moral que muitos sucumbiram ao feitiço de uma realidade imaginária, inventada por eles mesmos, que acabava por ser menos prática, porém mais reconfortante. Pilar Ternera foi quem mais contribuiu para popularizar essa mistificação, quando concebeu o artifício de ler o passado nas cartas como antes tinha lido o futuro. Com esse recurso, os insones começaram a viver num mundo construído pelas alternativas incertas do baralho, onde o pai se lembrava de si apenas como o homem moreno que havia chegado no princípio de abril, e a mãe se lembrava de si apenas como a mulher trigueira que usava um anel de ouro na mão esquerda e onde uma data de nascimento ficava reduzida à última quarta-feira em que cantou a calhandra no loureiro. Derrotado por aquelas práticas de consolação, José Arcadio Buendía decidiu então construir a máquina da memória, que uma vez tinha desejado para se lembrar dos maravilhosos inventos ciganos. A geringonça se fundamentava na possibilidade de repassar, todas as manhãs, e do princípio ao fim, a totalidade dos conhecimentos adquiridos na vida. Imaginava-a como um dicionário giratório que um indivíduo situado no eixo controlar com uma manivela, de modo que em poucas horas passassem diante dos seus olhos as noções mais necessárias para viver. Tinha conseguido escrever já cerca de quatorze mil fichas, quando apareceu pelo caminho do pântano um ancião mal-ajambrado, com o sininho triste dos que dormem, carregando uma mala barriguda, amarrada com cordas, e um carrinho coberto de trapos negros.

Cem Anos de Solidão, Gabriel García Marquez