Das grandes questões

Terminei de ler A redoma de vidro, de Sylvia Plath, há mais ou menos duas semanas. Rascunhava algumas coisas a respeito da novela fatídica de Plath, que até agora rendeu tão somente uma avaliação na Amazon e um comentário solitário no Goodreads. Admito, a contragosto, que é um livro que merece mais. Um pouco mais.

A redoma de vidro é de cunho profundamente autobiográfico1. Conta a história de Esther, garota e estudante universitária vinda de Boston e que, durante um estágio curricular numa revista feminina, permanece em Nova York.

Em suma: sua vida é esteticamente perfeita. Até que, na volta para casa, adentra um vórtex de desilusão. Recebe uma carta de recusa de uma oficina de literatura e escrita criativa da mesma Nova York com que sonhava há pouco tempo. Na casa da mãe, nos subúrbios de Boston, rememora problemas de relacionamentos e se percebe num mar de dúvidas e com a autoestima em fragilidade. Passa por consultas com um psiquiatra careiro (vinte e cinco dólares a hora) e desinteressado. Seus dias passam. Numa tarde qualquer, tenta ler Finnegan’s Wake, de James Joyce, e para nas primeiras páginas – o homem, admitamos, não é nada fácil. Esther, toda descontente, arrisca o suicídio engolindo pílulas no sótão da casa da mãe.

O colapso da saúde mental de Esther tem um efeito caleidoscópico. Praticamente, trata-se de uma espiral que, em momentos, parece lenta, mas depois se apercebe com uma rapidez implacável. Culpa disso talvez se dê pela escrita afobada de Plath, não acostumada com a prosa. É impossível perceber em qual exato momento a depressão se instalava na mente da moça2, mas depois de algum tempo as coisas ficam claras. É o desânimo dos simples atos, os pensamentos intrusos. Uma redoma que, enfim, se insere ao redor. Uma visão de mundo que o leitor percebe, lá no final, que sempre foi deturpada em relação a si e a uma plethora de outras realidades.

Esther passa por duas clínicas, a primeira pública, a qual envolvia o psiquiatra desinteressado, e a seu mando operavam nela tratamentos de choque. Tratavam-se, de qualquer forma, dos manicômios judiciários, os quais tratavam os pacientes como objetos e não como sujeitos de direito. Após tais experiências, Esther é encaminhada a outra realidade. Sua instalação numa clínica mais moderna e acolheradora é patrocinada por uma escritora famosa da época, a qual tinha tomado conhecimento da situação da universitária por algum artículo de jornal. Lá existe, pelo menos, uma vulgata de progresso e melhora clínica em Esther. Às vezes se está tão na merda que o melhor a fazer é fingir. Ainda que para si próprio. Sylvia Plath, nos seus últimos meses e dias, anteriores à publicação de A redoma, sabia magistralmente disso.

Muito embora essa recapitulação da história de Esther e, até onde sabemos, de Plath, não seja estritamente necessária para tecer o que será tecido, ela é importante para dizer duas coisas: por mais que seja impossível tecer críticas a respeito da forma com que Sylvia desenvolve a narrativa e as crises que levaram Esther a cometer o que cometeu, ao sofrimento a que foi imposta, ora por si mesma e ora por terceiros, é possível, de forma legítima, ir direto ao âmago. Isto é, existe algo que me incomodou profundamente na história da redoma metafórica. E eu acredito que essa irritação, melhor dizendo, venha a existir em razão do caráter sintomático da história.

Vou tentar explicar melhor.

É um tanto quanto óbvio sustentar que, além de ser uma história una sobre uma garota deprimida que tenta recorrer ao suicídio, que Redoma é tanto um ensaio bastante particular sobre um tipo de flagelo, o flagelo dos anos cinquenta na América, das aparências, da frustração. A literatura (e tenho minhas dúvidas quanto ao fato do que Sylvia fez aqui ser, realmente, literatura, mas divago enfim) é, ao mesmo tempo, una – já que responde a uma história específica – e universal, já que ressoa e repercute infinitamente. Não sei dizer se existem mensagens3 propriamente ditas na escrita de Plath nesta prosa, mas sei que parte do apelo do que é construído pelo livro vem dos panos de fundo – melhor dizendo, do cenário vivo da dicotomia entre metrópoles e subúrbios, normalidade e doenças, percepção e embotamento e, novamente, o mundo de aparências.

Ocorre que a minha irritação vem do fato de Plath ser contaminada pelo próprio mal que ela tanto critica – o mundo de fantasia que o progresso e tecnologia proporcionam, mas que, num último momento, levaram alguém também superficial à loucura. É que A redoma de vidro trata a depressão de maneira, estritamente, material quando deveria ser vista como a doença do espírito que é.

As causas do descontentamento de Esther são todas colocadas na mesa como advindas do mundo material – a perda de uma oportunidade, a monotonia, a incapacidade se lidar com o eu, com o sozinho, com o absurdo da existência4. E falando em ficar sozinho, Esther é patologicamente incapaz de estar e ser, dois estados de espírito completamente distintos. O silêncio é mortal dentro de sua mente.

É aí que vejo em A redoma de vidro uma grande ironia, talvez não intencional, o que acabe recaindo nos outros romances desiludidos de escritos fatídicos do século passado: há uma grande vontade e um grande ímpeto (quase uma coragem descomunal) em se lançar uma Grande Crítica em face de um intelectualismo e de uma sociedade, uma intelligentsia. A literatura como arma – o pior tipo de literatura. Plath quer escrever sobre a falta de percepção no mundo utilizando de sua anti-heroína como brinquedo enquanto desprovida de sua própria sensibilidade. O resultado é um livro mundano sobre o mundo.

Na redoma, não há muito a perquirir sobre a depressão porque, enfim, não há muito a ser averiguado. As razões para uma tentativa de suicídio, invocadas por um mundo ingrato e materialista, estão todas ali esparramadas pelas páginas do livro. Clarividentes.

Com o perdão do clichê, a metáfora não chega a riscar a redoma que, nas palavras de Plath, persiste em existir na espreita. A redoma, enfim, trata de grandes questões que, no manejo de Plath, tornam-se diminutas.


  1. The Bell Jar foi publicado, sob o véu de um pseudônimo, um mês antes de Plath cometer suicídio em 1963. 
  2. Falo aqui em moça para descrever tanto Esther quanto Plath. Muito devido às razões já mencionadas. 
  3. Tentando não ser muito pedante, mas não sou fã, particularmente, de McLuhan e a sua teoria de que a forma e o veículo são tudo que importa
  4. No final das contas, a todo momento enquanto lia a prosa de Sylvia Plath, recordava e tentava fazer conexões com O Mito de Sísifo, de Camus, e que pode ser lido como uma introdução à sua filosofia do absurdo, mas também (e eu prefiro que seja visto assim) como um questionamento sobre as razões do suicídio. Nada é tão simples como parece. 
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O outro

No livro de areia de Borges, o primeiro conto – ou crônica, pouco importa o gênero – é sobre, justamente, o outro. A diferença entre o sonho e a realidade é sobre como, às vezes, as duas coisas se relacionam. Diria que são idênticas para as melhores mentes. Eis a essência do realismo fantástico.

Também estou lendo o primeiro livro do 1Q84 de Murakami. Percebo, agora, e intercalando com Jorge Luis, que a diferença primordial no tratamento da diegese e da realidade reside, tão somente, no nível de lucidez empregado. Nada mais.

Preciso afunilar mais o pensamento, mas aqui fica o resumo de tudo: a diferença é de escala, logo ali no nível de tratamento da consciência da realidade. Assim se diz que a abundância de realidade, em verdade, sempre significou abundância de fantasia.

Preciso, entretanto, separar a fábula (Murakami) do estritamente real de cada dia que, por ventura, faz a centelha de magia escapar e vacilar (Borges e sua literatura movediça). Eis a lição que ainda merece outros posts. Inúmeros.

Cinema

– Como está indo o seu seminário sobre desastres de carros?
– Já examinamos centenas de colisões. Carros com carros. Carros com caminhões. Caminhões com ônibus. Motos com carros. Carros com helicópteros. Caminhões com caminhões. Meus alunos acham que esses filmes são proféticos. Que ilustram a tendência suicida da tecnologia. O impulso de suicidar-se, a sede incontrolável de suicídio.
– O que você diz a eles?
– De modo geral, são filmes classe B, feitos para a televisão, para passar em autocines do interior. Digo aos meus alunos que não devem procurar o apocalipse nesses filmes. Vejo esses desastres como parte de uma velha tradição de otimismo norte-americano. São eventos positivos, afirmativos. Cada desastre tenta ser melhor que o anterior. Há um aperfeiçoamento constante de instrumentos e perícia, desafios enfrentados. O diretor diz: “Quero uma jamanta virando duas cambalhotas e produzindo uma bola de fogo alaranjada com diâmetro de doze metros que dê para iluminar a cena”. Digo aos meus alunos que, se eles querem pensar em termos de tecnologia, têm que levar isso em conta, essa tendência a realizar atos grandiosos, a correr atrás de um sonho.
– Um sonho? E como seus alunos reagem?
– Igualzinho a você. “Um sonho?” Tanto sangue, vidro quebrado, borracha cantando? Tanto desperdício, tantos indícios de uma civilização em decadência?
– E aí?
– Aí eu lhes digo que o que eles estão vendo não é decadência, e sim inocência. O filme deixa de lado a complexidade das paixões humanas para nos mostrar uma coisa fundamental, cheia de fogo, barulho e ímpeto. É uma realização conservadora de desejos, uma ânsia de ingenuidade. Queremos voltar à pureza. Queremos voltar para trás na trajetória da experiência da sofisticação e das responsabilidades que ela implica. Meus alunos dizem: “Veja quantos corpos esmagados, membros amputados. Que raio de inocência é essa?”.
– E o que você diz a eles?
– Que não consigo encarar um desastre de carros num filme como um ato violento. É uma comemoração. Uma reafirmação de valores e crenças tradicionais. Eu associo esses desastres a feriados nacionais, como o Dia de Ação de Graças e o Dia da Independência. Nós não choramos os mortos nem celebramos milagres. Vivemos numa era de otimismo profano, de autocelebração. Vamos melhorar, prosperar, nos aperfeiçoar. Veja qualquer cena de desastre de carro de filme americano. É um momento de alegria, como uma cena de equilibrismo, de corda bamba. As pessoas que criam esses desastres conseguem captar uma serenidade, um prazer ingênuo do qual os acidentes de carro dos filmes estrangeiros não chegam nem perto.
– O negócio é enxergar além da violência.
– Justamente. Enxergar além da violência, Jack. E ver esse espírito maravilhoso de inocência e ludismo.

Don DeLillo, Ruído Branco

Erudição é a sua mãe

Quando observamos a quantidade e a variedade dos estabelecimentos de
ensino e de aprendizado, assim como o grande número de alunos e professores, é
possível acreditar que a espécie humana dá muita importância à instrução e à
verdade. Entretanto, nesse caso, as aparências também enganam. Os professores
ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo
crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem
para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar
ares de importantes. A cada trinta anos, desponta no mundo uma nova geração,
pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano
acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser
mais espertas do que todo o passado. É com esse objetivo que tal geração
freqüenta a universidade e se aferra aos livros, sempre aos mais recentes, os de
sua época e próprios para sua idade. Só o que é breve e novo! Assim como é
nova a geração, que logo passa a emitir seus juízos. – Quanto aos estudos feitos
simplesmente para ganhar o pão de cada dia, nem os levei em conta.

Começo de A Arte da Escrita, de Schopenhauer.

Simbólica

A escalada termina aí. No topo, voltamos a encontrar o princípio de identidade, que numa etapa do caminho havíamos abandonado, e que agora nos revela sua verdadeira índole de princípio metafísico, que não pode ser aplicado aos seres do mundo empírico senão pela mediação das analogias, nem pode, exceto por essa mesma mediação, ser conhecido senão como fórmula abstrata em que a mente, opaca, nada mais reconhece além da imagem repetida de seu próprio modo de operar.

Reconquistando assim o sentido metafísico da lógica analítica, compreendemos que, abaixo do plano da universalidade pura, ela só serve para o conhecimento da realidade quando mediada pela lógica dialética (da qual o método científico não é senão um  desenvolvimento), e que a lógica dialética, por sua vez, perde todo o sentido quando considerada de maneira literal, direta, e sem a  mediação do simbolismo. Fora destas precauções, caímos no conseqüencialismo abstrato da filosofia racionalista clássica e nos sujeitamos a todas as objeções kantianas, que não são válidas para uma metafísica fundada na dialética simbólica.

Tendo encontrado o princípio superior que organiza os vários planos de uma sequência analógica, parece que nada mais há a conhecer nesse domínio. Podemos ter aí a ilusão de ter alcançado, de uma vez, a verdade suprema.

Na prática, porém, quanto mais no aproximamos de um princípio universal, mais vão ficando para trás e cada vez mais longe as realidades concretas cuja explicação buscávamos. E, perto do topo, às vezes parecemos ter perdido de vista o propósito da viagem. O momento do reencontro passa, e nada nos resta nas mãos senão o enunciado abstrato e sem vida de um princípio lógico, que é a recordação melancólica de uma universalidade perdida. É preciso, portanto, descer novamente do princípio às suas manifestações particulares, e depois subir de novo, e assim por diante. De modo que a alternância sim-não, verdade-erro, que constitui para nós o início da investigação, é finalmente substituída, num giro de noventa graus, pela alternância alto-baixo, universal-particular. Passamos da oscilação horizontal para a vertical. E é justamente o despertar da capacidade de realizar em modo constante a subida e a descida, que
constitui o objetivo de toda educação espiritual, sem a qual a perspectiva que nos é oferecida pela dialética simbólica se torna para nós apenas miragem. Compreendemos assim quanto é vão e pueril todo ensino da filosofia que permaneça no nível da pura discussão e não inclua uma disciplina da alma. Que a filosofia tenha descido da
condição de uma ascese interior para a de um mero confronto de doutrinas num ambiente de tagarelice mundana, é um mal do qual o Ocidente, talvez, jamais poderá recuperar-se.

Parte final da apostila de Dialética Simbólica de Olavo de Carvalho.

Arrebatamento

Eis um relato mundano: comecei a ler Call Me By Your Name, livro de André Aciman que também dá luz ao filme a que mais quero assistir ainda este ano. Na metade de um dia, devorei boa parte da história. Parei e dei um suspiro. Deixei o .epub pirata de lado hoje e agora escrevo.

Explico: Cada página é como estar com o coração na mão. Larguei o livro hoje na parte mais perfeita que acredito que existe na história. Daí para frente é uma derrocada infernal, aposto. Parei [alerta de spoiler leve] quando Oliver e Elio se preparam para ir a Roma, ocasião em que vão aproveitar as duas últimas semanas de Oliver na Europa.

Esse meu ato é uma tremenda covardia, admito. Não quero mais avançar na história porque sei, com minha intuição, que não pode haver nada mais bonito e romântico do que foi retratado até então. O nascimento de um amor retratado, a olho nu, naquelas páginas. A resistência infantil. Um amadurecimento. A aceitação. O entrelaçamento de almas. Eis o amor.

Essa atitude também esconde uma idealização imensa, eu sei. Por isso resisto à ideia de partir o meu coração lendo uma obra-prima que, inevitavelmente, ao retratar o amor entre duas pessoas de maneira tão cândida, acabará, como alguém que conheço disse sobre a obra, em “uma ferida aberta”.

Call Me By Your Name, até onde li (entenda isto tudo aqui como uma resenha parcial se quiser) empresta muito dos estereótipos dos romances que querem abraçar tudo e todos – aqueles que querem transcender a história e impor uma visão de mundo. Às vezes, dá certo. Às vezes, não dá.

Aqui, funciona: o relato de um surgimento de um amor tão brutal e honesto também ganha traços singelos – algo que, pelo que percebo, o filme deve trazer muito bem.

A ideia de um amor que seja real, imaculado e, mesmo assim, imperfeito – justifica a tarefa incumbida a Sufjan Stevens de criar um mundo dentro desse universo da obra de Aciman. “Mystery of Love” é, como ele tem se proposto a fazer desde Carrie & Lowell, profundamente autobiográfico e, por isso, tão oportuno.

É belo como só Sufjan consegue conceber. Twee, eu ainda diria.

Talvez a razão pela qual eu tenha essa canção, pelo menos durante essas últimas semanas (antes mesmo de começar a ler o livro) é que ela congela essa mesma concepção que tenho do livro.

É dizer: Não parta meu coração.

Nos sonhos de Elio: If you stop, you’ll kill me.


A melhor representação da visão de mundo que é ofertada por Call Me By Your Name está neste pensamento de Elio:

Marzia called that morning while he was getting ready to leave. He almost winked when he handed me the telephone. There was no hint of irony, nothing that didn’t remind me, unless I was mistaken—and I don’t think I was—that what we had between us was the total transparency that exists among friends only.

Perhaps we were friends first and lovers second.

But then perhaps this is what lovers are.

O tempo foi superado (ou: Eu sou o que Sou)

Lembrei-me de um incidente – mais que um incidente – envolvendo meu filho Christopher. Em março de 1974, durante o tempo em que VALIS tomou conta de mim, teve o controle de minha mente, eu havia realizado uma iniciação correta e complexa de Christopher às fileiras dos imortais. O conhecimento médico de VALIS havia salvado a vida física de Christopher, mas VALIS não havia terminado por ali.

Essa foi uma experiência que guardei com carinho no meu coração. Ela foi realizada com profundo sigilo, ocultada até mesmo da mãe do meu filho.

Primeiro eu havia preparado uma caneca de chocolate quente. Depois, um cachorro-quente no pão com os molhos típicos; Christopher, ainda bem novinho, adorava cachorro-quente e chocolate quente.

Sentado no chão do quarto do Christopher com ele – ou melhor, VALIS em mim, como se fosse eu – comecei a jogar um jogo. Primeiro, segurei de brincadeira a caneca de chocolate no alto, sobre a cabeça de meu filho; depois, como se fosse por acidente, deixei cair um pouco de chocolate em sua cabeça, em seus cabelos. Rindo, Christopher tentara limpar o líquido; eu, naturalmente, o ajudei. Curvando-me em sua direção, murmurei:

“Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.

Ninguém me ouviu, a não ser Christopher. Agora, ao limpar o chocolate quente de seus cabelos, inscrevi o sinal da cruz em sua testa. Eu o havia batizado e agora o confirmava; foi o que fiz, não pela autoridade da igreja, mas pela autoridade do plasmado vivo em mim: o próprio VALIS. Em seguida, eu disse ao meu filho: “Seu nome secreto, seu nome cristão é…”. E eu lhe disse qual era. Apenas ele e eu sabemos; ele, eu e VALIS.

Em seguida, peguei um pedaço de pão do cachorro-quente e estendi-o à minha frente; meu filho – ainda um bebê, na verdade – abriu a boca feito um passarinho, e eu coloquei o pedacinho de pão dentro dela. Era como se nós dois estivéssemos compartilhando uma refeição; uma simples, comum e cotidiana refeição.

Por algum motivo, parecia essencial – crucial, até – que ele não desse nenhuma mordida na carne do cachorro-quente. Carne de porco não podia ser comida nessas circunstâncias; VALIS me transmitira esse conhecimento necessário.

Quando Christopher começou a fechar a boca para mastigar o pedaço de pão, dei a ele a caneca de chocolate quente. Para a minha surpresa – ele era tão novinho que ainda costumava beber em mamadeira, nunca numa caneca -, ele estendeu as mãos ansioso para pegar a caneca; quando ele a pegou, levou-a aos lábios e bebeu dela, eu disse:

“Esse é o meu sangue e este é o meu corpo”.

Meu filhinho bebeu, e peguei a caneca de volta. Os maiores sacramentos haviam sido realizados. O batismo, depois a confirmação, e depois o maior sacramento de todos, a Eucaristia: o sacramento da Ceia do Senhor.

“O Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo, que foi derramado por vós, preserva vosso corpo e conduz à vida eterna. Tomai e bebei em memória de que o Sangue de Cristo foi derramado por vós, e dê graças.”

Esse momento é o mais solene de todos. O próprio sacerdote se torna Cristo; é Cristo que oferece seu corpo e sangue para os fiéis, por um milagre divino.

A maioria das pessoas entende que no milagre da transubstanciação o vinho (ou o chocolate quente) se torna o Sangue Sagrado, e a hóstia (ou o pedaço de pãozinho de cachorro-quente) se torna o Corpo Sagrado, mas pouca gente, mesmo dentro da igreja, percebe que a figura que se põe diante deles segurando o cálice é o Senhor deles, vivo agora. O tempo foi superado. Estamos de volta quase dois mil anos; não estamos em Santa Ana, Califórnia, EUA, mas em Jerusalém, por volta de 35 A.C.

O que eu havia visto em 1974 quando vi a superposição de Roma antiga e da Califórnia moderna consistiu em um testemunho real do que é normalmente visto pelos olhos internos dos fiéis apenas.

Minha experiência de dupla exposição havia confirmado a verdade literal – não meramente figurativa – do milagre da Missa.

Como eu disse, o termo técnico para isso é anamnese: a perda do esquecimento; ou seja, a lembrança do Senhor e da Ceia do Senhor.

Eu estava presente naquele dia, na última vez que os discípulos se sentaram à mesa. Pode ser que vocês creiam em mim; pode ser que não. Sed per spiritum sanctum dico; haec veritas est. Mihi crede et mecum in aeternitate vivebis.

Meu latim provavelmente é cheio de defeitos, mas o que estou tentando dizer, mal e mal, é: “Mas falo por intermédio do Espírito Santo; esta é a verdade. Crede em mim e vivereis comigo na eternidade”.

Nossa bagagem apareceu; entregamos nossos tíquetes de bagagem para o guarda uniformizado, e, dez minutos depois, estávamos seguindo de carro para o norte na rodovia para Santa Ana, para casa.

Um dos trechos mais bonitos de Valis, uma das obras-primas de Philip K. Dick. Talvez eu escreva sobre o livro daqui a algum tempo. Desde já, é uma das leituras mais iluminadas que já tive.

 

Reflexões sobre o estranho

Gothic criticism, of which there is a vast boiling vat these days, has been rendering down the ectoplasmic energy of “spectrality” into sound bites for 25 years, while critics seem to arrive pre-loaded with cookie-cutter cribs from Freud’s “The Uncanny,” in which they laboriously explain yet again that the term unheimlich means rather more literally the unhomely in German, but that the “homely” is housed inside the “unhomely,” the outside in the inside, the strange in the familiar. Right at the start of his book, Fisher acknowledges that Freud’s unusually chaotic essay is full of brilliant possibilities but ends with an interpretation “as disappointing as any mediocre genre detective’s rote solution to a mystery.” This wonderfully provocative dismissal sets Fisher up to articulate an alternative set of terms outside ossified Gothic criticism and dictates the wholly new conceptual structure of his book.

The uncanny, Fisher says, puts the “strange within the familiar” and “operates by always processing the outside through the gaps and impasses of the inside.” In other words, for all its interest in boundary breaches, it is still centered on the self. The weird and the eerie work at this from the other direction, Fisher suggests: “they allow us to see the inside from the perspective of the outside.” The weird is a disturbing obtrusion of something from the outside in. It is the insidious intrusion, the confounding juxtaposition, the thing found in the wrong place. As Lovecraft put it in his essay “Supernatural Horror in Literature,” the weird is “a certain atmosphere of breathless and unexplainable dread of outer, unknown forces.” Lovecraft’s fictions, at their evocative best, are about a steady dethronement of anthropocentric models. This explains the embrace of Lovecraft’s weird realism by philosophers challenging phenomenological paradigms, or leaning toward the radical end of “Thing Theory,” where things escape routine imprisonment inside the implicit hierarchy of the subject/object binary.

The eerie, however, is Fisher’s original extension of this idea. He takes the eerie from lazy, everyday usage and gives it conceptual rigor: places are eerie; empty landscapes are eerie; abandoned structures and ruins are eerie. Something moves in these apparently empty or vacated sites that exists independently of the human subject, an agency that is cloaked or obscure. He wonders: What kind of thing makes an eerie cry? Because it rises up from the outside, and remains there, it resists simple hermeneutic interpretation.

Sobre Mark Fisher e sua última obra — sem nenhum complexo de adulação — numa análise do LA Review of Books.

The Idiot

Not that Kitsey and I weren’t very different people, as well, but that was all right: after all, as Hobie had pointed out sensibly enough, wasn’t marriage supposed to be a union of opposites? Wasn’t I supposed to bring new undertakings to her life and she to mine? And besides (I told myself) wasn’t it time to Move Forward, Let Go, turn from the garden that was locked to me? Live In The Present, Focus On The Now instead of grieving for what I could never have? For years I’d been wallowing in a hothouse of wasteful sorrow: Pippa Pippa Pippa, exhilaration and despair, it was never-ending, incidents of virtually no significance threw me to the stars or plunged me into speechless depressions, her name on my phone or an e-mail signed “Love” (which was how Pippa signed all her e-mails, to everyone) had me flying for days whereas—if, when phoning Hobie, she didn’t ask to speak to me (and why should she?) I was crushed beyond any reasonable prospect. I was deluded, and I knew it. Worse: my love for Pippa was muddied-up below the waterline with my mother, with my mother’s death, with losing my mother and not being able to get her back. All that blind, infantile hunger to save and be saved, to repeat the past and make it different, had somehow attached itself, ravenously, to her. There was an instability in it, a sickness. I was seeing things that weren’t there. I was only one step away from some trailer park loner stalking a girl he’d spotted in the mall. For the truth of it was: Pippa and I saw each other maybe twice a year; we e-mailed and texted, though with no great regularity; when she was in town we loaned each other books and went to the movies; we were friends; nothing more. My hopes for a relationship with her were wholly unreal, whereas my ongoing misery, and frustration, were an all-too-horrible reality. Was groundless, hopeless, unrequited obsession any way to waste the rest of my life?

Donna Tartt, The Goldfinch

P.S.: Feliz ano novo, aliás. Entre tantas outras coisas, tenho planos para a manutenção deste blog para além de um depósito de citações ora mortas. Enquanto que o meu tumblr vai se dedicar mais a crítica para outras publicações, este recinto quer ser mais pessoal e menos extravagente — diga-se: exibicionista — que o companheiro de endereço diferente.