Capitalizando

O clipe de “Freedom” da Beyoncé é prova de que ninguém sabe capitalizar sobre ativismo barato  mais que ela. A música segue boa. A ideia nem tanto.

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Arrependimento

Há grande arte a ser retirada do perdão. Antes de qualquer coisa, de perdoar a si mesmo por qualquer coisa que tenha te impedido de enxergar, algum dia, a verdade. Esse é um ultimato. Se bem aproveitada, essa conversão gera catarse.

Miley Cyrus sabe disso. Tanto é que Bangerz, lançado em 2013, foi de um sucesso tão estrondoso que, pelo menos naquela época, parecia que o mundo girava em torno da moça. Younger Now, a canção e o disco novos, dão conta de uma transformação óbvia: Cyrus olha para trás não com um olhar nostálgico, mas olha para frente com um tanto de arrependimento. De tão arrependida, tentando correr tanto atrás do prejuízo, o resultado é uma ode a uma suposta paz de espírito recém-conquistada.

Não sei se vou escrever sobre o disco em si depois (o tempo e paciência são escassos ultimamente), mas só gostaria, por enquanto, de deixar isso registrado: é louvável uma tentativa de reconstrução de uma persona, de redimir quaisquer pecados. O teatro todo até que me convence. Eu entendo tudo isso. Só faltou força e determinação.

Mais importante talvez: faltou paixão pela vida da qual ela diz sentir tanta falta.

Uma canção sobre tudo e todos

Sozinhos, ao longo dos anos, Courtney Barnett e Kurt Vile criaram canções extremamente mundanas e que se aplicam a narrativas sobre o mundo. É vago assim mesmo. Em “Over Everything”, existe esse sentimento potencializado.

Algo sobre nada e tudo ao mesmo tempo.

Seria um desperdício de tempo, uma piada em si mesma, se essa criação não fosse tão bonita.

Espontaneidade

Por dois dias, fiquei ruminando sobre o significado de um acontecimento, um evento. Ainda estou. Algo do porte daqueles que fazem com que você pense sobre tudo e todos ao seu redor, o seu papel na vida das pessoas, bem como o seu papel na sua própria vida.

Trocando por miúdos: há dois dias, algo fodido aconteceu. Algo fodidamente complicado. Algo que implodiu relacionamentos. O meu, de outras pessoas e que escancarou verdades. Desnudou pessoas e comportamentos. E que me mudou. Se foi para pior ou melhor, não sei. Ainda preciso digerir tudo isso

Não sei como escrever sobre “tudo isso”. Também não sei como adicionar mistério a esse enredo. Nem sei, também, como tratar este post. Merda acontece. A vida segue.

Entretanto, algo mudou. Como alguém que admiro muito uma vez disse sobre “Say Something Loving“, do The xx, às vezes é preciso endurecer um pouco o coração para poder amar. Amar melhor. Eis uma lição. Uma nota mental, eu diria.

Pouco tempo atrás, o Wolf Alice lançou o clipe para “Don’t Delete the Kisses”. Só tinha escutado a canção. Assisti ao vídeo pela primeira vez há pouco. Aprendi que essa banda faz música para quem gosta de sonhar acordado. O vídeo me faz lembrar de algo importante, que faltou na noite de dois dias atrás: espontaneidade. Um pouco de coragem, talvez, para enfrentar o mundo.

Li há pouco que o oposto da vitalidade (da vida portanto) é a mágoa. Que isso fique bem registrado. Isso é um mantra a ser vivido.

Dito isso, vou deixar o clipe aqui. É bonito.

Talvez essa seja a canção do ano. Uma boa escolha.

Escapismo

Não é segredo algum — nem para mim ou mesmo para os outros — que não escuto mais música como fazia antigamente. Isso não significa que, de vez em quando, eu não possa escrever sobre o que mexe comigo. Por isso, aquele post aberto e confessional — portanto, adolescente — sobre Melodrama. Dia desses, ainda falo de como aquele texto gerou uma reviravolta no meu mundinho.

Mesmo assim, aquela página de diário escancarada e rasgada não tratou de tudo que eu havia de falar sobre o disco. Na verdade, foi mais um tratado sobre mim, minhas amizades e solidão do que propriamente algo sobre a música. Ou, talvez, eu esteja errado: a única forma de discutir música, verdadeiramente, é falar de si mesmo.

“Perfect Places” fecha Melodrama num tom evidentemente escapista. Melodrama, como eu disse milhões de vezes, é sobre entrar na vida adulta. Existem centenas de milhares de discos pop sobre isso. É batido. Talvez seja até possível dizer que isso é clichê. Mas algo igualmente lugar-comum precisa ser dito para rebater isso (clichês, ironicamente, são rebatidos melhor por outros clichês): Cada voz é divina. É individual. Personalíssima. Lorde trabalha aqui como narradora do mundo. Desbravadora.

De tão desbravadora que é essa moça fez o clipe mais óbvio para a melhor canção do ano. Aqui, ela visita lugares paradisíacos que são muito parecidos com o que ela mencionou numa entrevista, mais cedo este ano, no Jimmy Fallon. Um vídeo terrivelmente óbvio.

Eu estava já com as pedras nas mãos quando lembrei do que Lorde, ela mesma, tinha escrito sobre o disco que ela criou. Numa espécie de laboratório em que artistas podem discorrer, livre e humildemente, sobre suas obras, Lorde escreveu algo sobre Melodrama que se encaixa, também, em qualquer outra relação tortuosa existente entre autor e obra:

The record I ended up making surprised me, I think. It’s rich and lush, technicolour. There’s joy to it, and pain. I’m struck by how sensory it is. In some ways it’s a celebration of the senses, a devotional you can feel all this, and stay standing!

De repente, está tudo perdoado.

The xx | “Brave for You” (Marfa Demo)

Ainda não escrevi muito esse ano sobre o The xx e, principalmente, I See You, um dos meus discos favoritos de 2017. Isso não impede, entretanto, que eu aponte que esse vídeo de uma canção extraída da versão de luxo do álbum seja uma das coisas mais singelas que a banda já fez.

Tudo indica que isso seja da mesma época em que eles gravaram o clipe de “On Hold“. Tudo aqui, dessa vez, é mais humano. Ainda bem.