Ninos Du Brasil | “Condenado Por Un Idioma Desconhecido”

Não sai dos fones de ouvido.

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Um tormento chamado ansiedade

A cada dia que passa, minha certeza só é uma: a existência é, em si, modernamente, ansiedade. Por isso esse texto aqui de Nitsuh Abebe na New York Times Magazine é tão enfático num diagnóstico bastante necessário.

Lê-lo é uma dádiva. “Anxiety, after all, need not be rational, need not be coherent, can contain multitudes”, como ele diz.

 

Uma canção sobre tudo e todos

Sozinhos, ao longo dos anos, Courtney Barnett e Kurt Vile criaram canções extremamente mundanas e que se aplicam a narrativas sobre o mundo. É vago assim mesmo. Em “Over Everything”, existe esse sentimento potencializado.

Algo sobre nada e tudo ao mesmo tempo.

Seria um desperdício de tempo, uma piada em si mesma, se essa criação não fosse tão bonita.

Sabático

Quatro horas da tarde. Sábado e domingo. São esses momentos que eu dedico, quase que num ritual, a um processo que já leva alguns anos.

Coar o café, sentar numa mesa, pegar um livro ou, ainda, sentar na frente do computador para escrever.

Escrever qualquer coisa.

Como isso daqui por exemplo.

De qualquer forma, existe algo de muito poético nessa imagem que eu construo desses momentos. De tão poético surge algo assim:

 

A Realidade não cabe em um livro

É comum para um aluno que inicia o curso de Direito ser perguntado, logo nas primeiras aulas, a razão pela qual estar matriculado ali, naquele lugar, naquela sala, com aquelas pessoas. Foi assim comigo em fevereiro de 2013. Logo na primeira aula de Introdução ao Estudo de Direito, uma professora excelentemente pragmática realizava essa questão a todos os alunos. Na frente de todo mundo. Na cara dura. Na verdade, ninguém queria admitir que estava ali por pressão dos pais, porque não sabia nada do que queria com a vida  (Como queriam? Eram [são] bebês), que na família já havia advogados, coisa do tipo. Aí inventavam frases de efeito que causaram (e ainda causam) vergonha.

(Quando, por exemplo, fui questionado sobre com qual ramo do Direito eu mais me identificava, disse Empresarial por conta do status. Como eu era burro.)

A frase mais comum era essa aqui:

“Por justiça”.

O problema começava a surgir quando um estudante de primeiro ano do curso de Direito falava em justiça pressupondo que entendia algo sobre isso tudo.

Evidentemente, havia gente que realmente acreditava num ideal metafísico de Justiça. Não sou capaz de criticar o amor dessas pessoas. Na verdade, eu inclusive compartilhei desse amor por Justiça. No Brasil, entretanto, tudo é mais complicado. Inclusive o amor. Inclusive a Justiça.

Não lembro da resposta que entreguei naquele momento, mas deve ter sido algo nesse sentido vazio e abstrato de doer. “Por justiça, por querer mudar o mundo”. Algo assim, envolto num discurso inofensivo e asséptico.

Havia talvez, ali, um tipo muito raro de inocência. A inocência acadêmica. Uma crença profundamente arraigada, num ambiente muito particular que, no Brasil, ganha conotações negativas. Naquele lugar, na Academia, todo tipo de inocência e amor podem florescer.

É ali em que o ideal de Justiça nasce e morre no coração do estudante de Direito.

Demorou um tanto para que eu percebesse isso, mas o Direito é muito mais que uma construção metafísica, tripartite (olá, Miguel Reale). Nem é um todo complicado demais como querem a fenomenologia e outros ramos. Talvez a resposta esteja nas formulações hermenêuticas de Dworkin, um cara extremamente prático que não vê necessidade na criação de uma Teoria do Tudo. A filosofia de Dworkin nasceu da experiência, do contato e questionamento direito da realidade. O Direito há de ser percebido na experiência também.

Isso, irônica e paradoxalmente, é pura teoria. Isso ocorre porque a faculdade de Direito (isto é, a vida) ensina pelo menos duas coisas, mesmo que você falte (e depois abone, claro) em todas as aulas: há quem veja no Direito um meio para um determinado fim particular e egoísta. É geralmente o advogado que gosta de jogar conversa fora fútil com sua trupe enquanto comenta as notícias do dia e fala de prosperidade e sucesso comercial. Do outro lado, a raridade, a exceção, aquele que entende o Direito como integridade, como uma escala, como um meio de transformação.

Tudo isso, obviamente, existe na minha cabeça.

A minha maior frustração é ver os meus amigos caindo no que Heidegger chamou de perda de diferencial ontológico. A perda da noção de existência. Em outras palavras, a perda de um significado maior. A perda, em outras palavras, da vida.

Transportando isso para o Direito, os debates acerca dele se transformaram em pura racionalidade instrumental. Na casa de seus trinta e poucos anos, ouvi de uma professora que “juiz não lê nada mesmo”.

Desistindo da vida e, assim, desistindo do Direito, o ser vai se afundando nessa teoria — a noção de que o Direito é mais que pura racionalidade instrumental, algo dependente da Política, da Economia, da Moral. Algo que tenha, enfim, autonomia.

Por isso o título: obviamente, a realidade não cabe em livros. Na verdade, os livros são compostos por centelhas da Realidade. Mas há algo de triste nisso tudo. Quem parece nadar contra a maré, contra tudo e contra todos, parecem ser os mais arraigados num constitucionalismo tido como antiquado. A esses, são reservados os livros, que, coitados, não cuidam de toda a Realidade.

A quem vê o Direito como um empecilho, parece que há a vida toda pela frente.

Um super-herói

Quando eu era bem pequeno e tinha, sei lá, uns seis ou sete anos de idade, ainda não existiam, popularmente, DVDs ou mídias digitais de fácil acesso. Isso significa que muitas das recordações da minha família estão registradas em fitas de vídeo VHS. Estão ganhando poeira sobre poeira.

Lembro que um dos meus primos por parte de pai tinha um fascínio por cinema. Tanto fascínio que, além de ser encarregado de filmar todos os grandes acontecimentos da família, como aniversários dos meus avôs, festas de fim de ano e coisas do tipo, ele gostava, aos seus quinze anos de idade, de criar filmes. Um fã apaixonado do Super Homem e detendo uma coleção invejável dos filmes do James Bond em VHS, ele ainda desenhava as capas dos filmes e os pôsteres.

Esses filmes eram amadores (e, por isso mesmo, amáveis) em todos os sentidos, desde a confecção de créditos de uma maneira bastante inventiva até a criação de personagens interpretados por amigos e parentes. Na verdade, a família inteira era envolvida, de alguma forma, na produção desses filmes caseiros do meu primo.

Ou seja, ele era (e acredito que ainda é) a criatividade em pessoa.

Ler a história de Calvin Trillin na New Yorker sobre a perda dessa tradição de filmes caseiros, com roteiro e tudo, fez com que eu pensasse sobre tentar revitalizar isso na família. Muito embora exista o sentimento de que todo mundo teria mais o que fazer da vida do que embarcar nessas aventuras amadoras novamente, mas talvez seja suficiente perder uma tarde assistindo a tudo aquilo de novo.

Talvez eu ligue para alguém para saber a respeito do paradeiro desses filmes. Dessas fitas e tudo mais que as rodeia.

Talvez. Não custa tentar.

Iluminado

Quando Julien Baker lançou seu Sprained Ankle no ano passado, não prestei muita atenção no início. É que a música da moça, num primeiro contato, demonstra que vai levar tempo. Eis um nome estranho e enfadonho para se dar para música, mas “minimalista” parece descrever as canções daquele disco de início de carreira. A voz, geralmente escondida debaixo da produção, não parecia dizer muito. O que evitou fazer de Sprained Ankle música típica de elevador foi sua capacidade como narradora. Baker paga um tributo aos compositores que trabalham com sua arte como quem rasga páginas de um diário. É bonito, mas cansa a alma. E como cansa.

“Appointments” é a primeira canção que temos de Turn Out The Lights, o segundo disco de Baker. A mudança chega a ser radical. Longe está o abstracionismo daquele primeiro álbum. Baker traz algo mais concreto. A voz é mais gutural. A cadência é mais sentida.

O golpe final é dado com isso:

“Maybe it’s all gonna turn out alright

And I know that it’s not, but I have to believe that it is”

Jesus Amado.

Trauma

A resenha de domingo da Pitchfork de hoje foi sobre a obra-prima do Tears for Fears, Songs From the Big Chair. Uma raridade nesse site:

Then, Tears for Fears turned up in an unlikely place: Donnie Darko, a film that subverts ’80s teen movies. “Head Over Heels” is memorably included during a slow-motion montage, but Tears for Fears were mostly rediscovered by younger audiences thanks to Michael Andrews and Gary Jules’ cover of “Mad World.” By peeling away all the circuitry and flash of the original, replacing the gizmos with mostly non-electronic instruments, and slowing the tempo, Andrews and Jules exposed “Mad World” as the post-9/11 emo ballad it was perhaps destined to be. As the 2000s progressed, you’d hear Tears for Fears incrementally more often. In 2008 Kanye West sampled the chorus of The Hurting’s “Memories Fade” on “Coldest Winter,” from 808s & Heartbreak, coincidentally about an artist trying to deal with the death of his mother.

Today you’ll hear “Everybody Wants to Rule the World” all over the place—it’s a staple of classic-rock radio, pharmacies, bars, and parties. But at its core the song is still dealing with Janov; with how, ultimately, what human beings want is control, and the inability to control your own life is misdirected into a desire to overpower other people. It’s a constant with Songs From the Big Chair: interior drama is construed as being about collective suffering. Personal chaos is universal. Welcome to your life. There’s no turning back.

Ainda há salvação. #pray4p4k