KELLY CLARKSON – “SINCE U BEEN GONE”

Redescobrir o brilhantismo pop desse século tem sido bastante proveitoso. E toda vez que eu quero me lembrar de como o pop rock já foi interessante, eu recorro a essa obra-prima radiofônidica de 2004. Pena que ela nunca conseguiu igualar.

Anúncios

Até agora…

1 James Blake James Blake
2 PJ Harvey Let England Shake
3 EMA Past Life Martyred Saints
4 Bon Iver Bon Iver
5 Lykke Li Wounded Rhymes
6 WU LYF Go Tell Fire To The Mountain
7 Fleet Foxes Helplessness Blues
8 Gang Gang Dance Eye Contact
9 Colin Stetson New History Warfare Vol. 2: Judges
10 Destroyer Kaputt
11 Panda Bear Tomboy
12 The Antlers Burst Apart
13 Tim Hecker Ravedeath, 1972
14 Nicolas Jaar Space Is Only Noise
15 Washed Out Within And Without
16 Africa Hitech 93 Million Miles
17 The Caretaker An Empty Bliss Beyond the World
18 The Weeknd House Of Balloons
19 Shabazz Palaces Black Up
20 The Men Leave Home
21 John Maus We Must Become The Pitiless Censors Of Ourselves
22 Julianna Barwick The Magic Place
23 Cults Cults
24 Pure X Pleasure
25 Tyler, the Creator Goblin
26 Liturgy Aesthethica
27 Fucked Up David Comes To Life
28 Araabmuzik Electronic Dream
29 Radiohead The King Of Limbs
30 Eleanor Friedberger Last Summer
31 tUnE-yArDs w h o k i l l
32 How To Dress Well Just Once EP
33 Girls Father, Son, Holy Ghost
34 Wild Beasts Smother
35 Shlohmo Bad Vibes
36 Long Arm The Branches
37 Katy B On A Mission
38 Grouper A I A : Dream Loss
39 St. Vincent Strange Mercy
40 Dirty Beaches Badlands
41 Ty Segall Goodbye Bread
42 Marissa Nadler Marissa Nadler
43 Whatever Brains Whatever Brains
44 The War on Drugs Slave Ambient
45 The Weeknd Thursday
46 The Pains Of Being Pure At Heart Belong
47 Eric Copeland Waco Taco Combo
48 Dom Family Of Love EP
49 Danny Brown XXX
50 Beyoncé 4

Beyoncé vai muito provavelmente sair da lista e acredito que o álbum da Bjork vá mudar algo no top 20.

Pouca coisa vai mudar, no final das contas.

MASSIVE ATTACK – “TEARDROP”

Embora “Teardrop” seja considerada só a flor bela de Mezaninne (e o crédito todo vá para a também incrível “Inertia Creeps”), os vocais angelicais de Elizath Fraser merecem mais atenção.

O contraste no qual a canção opera é bastante evidente: a tranquilidade da voz de Fraser versus as batidas repetitivas e às vezes sinistras, o solo de piano contra a atmosfera asfixiante. Por isso me talvez me lembre demais “How To Disappear…” do Radiohead.

Elizabeth disse que essa canção foi escrita para Jeff Buckley, morto na época. Faz sentido. E só agora percebo que tenho uma forte ligação com canções que discursam sobre a morte. Estranho, senão sinistro.

Lady GaGa | “Born This Way”

Não tenho muito o que fazer, então vou resenhar o medíocre Born This Way, da Lady GaGa. Resenha extremamente atrasada, eu sei:

Madonna já teve essa fase, Cher já teve essa fase, Whitney Houston (!) já teve essa fase. E agora é a vez de Lady GaGa proclamar-se a rainha dos excluídos e alternativos (?!!), os monsters, como ela própria diz.

Ela fez carreira num momento muito propício para a música pop:no fim de 2008, com aquele hit chiclete que nem Christina Aguilera suportava (“Just Dance”) e “Poker Face”. Mas o mundo gira e as coisas mudam, e artistas melhoram. GaGa se tornou verdadeiramente uma artista pop de respeito no fim de 2009, com a incrível “Bad Romance”, do bom The Fame Monster. A canção (e o disco, surpreendemente) funcionava porque trabalhava todas as ideias centrais de GaGa (o excesso do Queen, a personalidade de um David Bowie) em meros cinco minutos de explosão pop. Ela me conquistou.

Born This Way trabalha essas ideias ainda mais, o que me faria acreditar que ela estaria ainda melhor. Mas o que diferencia The Fame Monster de Born This Way é o terreno onde ela pisa, Ela sabia o que fazer, ela tinha ciência do que fazia, o que adicionava conhecimento à sua verdadeira enciclopédia da cultura pop. Quanto sofrimento...

Born This Way abre com “Marry The Night”, uma canção que revê a disco como alguém que aperta o shuffle do iPod sempre que possível. É a faixa de abertura perfeita, na verdade. “Born This Way”, a faixa-título, sofreu comparações com “Express Yourself”, de Madonna. Isso tem um que de verdade, mas o barulho causado foi mais uma expressão de ódio por parte dos haters do que um debate realmente justo.

“Judas”, outro destaque, é pastiche assim como “Americano” e “Scheiße”, que são praticamente derivados de Ibiza. Essa análise rápida demonstra que o problema de Born This Way não é estritamente sonoro. As ideias pop estão perfeitamente alinhadas com o que se esperaria de um disco pop vindo de alguém tão excêntrico como GaGa (o que o torna um tanto previsível e bastante maçante), mas Born This Way, na essência, não diz nada sobre o que ela quer ser enquanto artista e fenômento pop. O som está aqui, mas não soa como uma libertação pop. É um vácuo. E eu começo a perceber que ela não vai se tornar a artista que nós precisamos. Uma pena.

Nota: 5,0/10

O professor Lynch

Tentar entender a relação aluno/professor é como administrar um eterno conflito interpessoal. É assim mesmo. Há para cada professor um aluno-espelho, não?

Há professores que administram seus alunos (o verbo “administrar”, nesse caso, não é acidental) como a Pitchfork dá suas notas pseudocientíficas aos álbuns (um dez a cada década e o professor tenta ao máximo expor sua “Best New Music”) e os que pararam no tempo – palestra é a nova aula e filme é o novo seminário – ou porque quiseram ou porque assistiram muito a “Star Trek”.

Para aqueles que pararam no tempo, se torna muito mais difícil entender a verdadeira dicotomia que é ser um adolescente. Nós, adolescentes, somos sábios até darmos conta que somos ignorantes, e tentamos entender o mundo com o nosso caleidoscópio de emoções. Eu, por exemplo, tento entender a Pitchfork através dessas linhas mal traçadas e parágrafos desajeitados no que eu chamo de “crônica” (a metalinguagem vale a pena, não?).

 

Há, todavia, muito humor nessa relação aluno/professor. Lidar com a arrogãncia diária de dezenas de pessoas seria insuportável sem uma boa dose de autodepreciação. E é por isso que essa relação continua tão fascinante e confusa quanto um filme de David Lynch: não nos entenda, porque nós não nos entendemos.

Sim, essa foi a minha crônica para a prova de redação. O tema que eu escolhi (havia vários) foi a relação aluno/professor. De repente, tudo o que eu conseguia pensar era em satirizar a Pitchfork (aqueles 9.3 e 9.0 doeram muito) e falar algo esperto sobre David Lynch.

Divulgada a capa de “Ceremonials”, novo disco de Florence + The Machine

De acordo com a capa, uma montagem esquisita do que se esperaria de uma Tori Amos com uma Sarah McLachlan. De acordo com o vídeo, a prova definitiva de que David Lynch está dominando a música.

M.I.A | “Kala” (2007)

 

O ano de 2007 foi confuso. Os Radiohead trabalhavam em mais uma obra-prima, o LCD Soundsystem criava mais um hino (“All My Friends”, por sinal, é uma das melhores canções desse século), o Animal Collective criava o antecessor de sua magnum opus, e Panda Bear criava a base de um som que até hoje tem seus seguidores. Sim, foi um ano confuso.

Para aqueles que ainda não acreditam que a nossa noção de música pop está se estreitando, ouvir Kala teve lá seu impacto.

Kala funciona porque trabalha numa tremenda inversão de valores, tanto musical quanto política. M.I.A. utiliza os clichês sonoros (Bollywood em “Jimmy”, por exemplo) para solidificar  o seu “conhecimento” sobre globalização, terceiro mundo, África e tudo mais. E é por isso que a tese do disco ainda soa tão atual: Kala não é só sobre política assim como Kid A não é só sobre alienação. É caótico mas controlado, com uma comentarista social que dispensa credencias e – de novo! – conhecimento (“Credentials are boring”, ela diz na óbiva “Bird Flu”)

Ela foi além do grime e new rave, impondo uma visão. Na verdade, o que torna o disco interessante é a própria personalidade de M.I.A, que não considera nada verdadeiramente sagrado dentro da música pop.

Claro, por tudo isso ela foi chamada de oportunista (anos depois o New York Times iria acabar com sua imagem pública e o Vampire Weekend escreveria um verso só para ela). Mas engana-se quem pensa que essa linha de raciocínio é válida, porque Kala é um dos discos mais despretensiosos da última década. Como disse Xgau na época, “the danger is everywhere”.

Se o disco diz algo sobre nossa geração, é a expressão quase que sarcástica do pop globalizado, que se revolta contra a guerra (“Paper Planes”), capitalismo e paranoia.

Falando em “Paper Planes”, tal canção atingiu as paradas (alcançou o quarto lugar na Billboard Hot 100, feito um tanto raro para uma artista tão incomum) de forma tão profética quanto sarcástica. Os samples (armas e dinheiro!, Iraque e Afeganistão!), os assassinatos e as falsificações: a genialidade estava ali.

Embora seja preferível analisar Kala em um contexto histórico e próprio de sua época (grandes álbuns são feitos disso, não?), Kala ainda sobrevive e já tem seu legado porque é interessantíssimo musicalmente. A rave de “XR2”, o afropop de “Bamboo Banga”, o sample do The Clash em “Paper Planes”. O álbum teve um timing perfeito, quando a retórica da “globaboseira” começava a tomar proporções preocupantes, disso não há dúvida (e não se fazia nada de realmente intrigante a respeito disso no mundo da música, convenhamos).

Embora gente como Simon Reynolds (autor de Retromania) queira que você acredite que a década passada não passou de uma fotocópia do que veio antes, houve sim discos que propuseram uma nova forma de sintetizar nossos desejos e vontades (e pop não é isso?). Kala foi, definitivamente, um desses álbuns.

St. Vincent | “Strange Mercy”

Eu, sinceramente, tento entender o que se passa na cabeça dessas cantoras e compositoras atuais. É uma combinação de surrealismo pós-moderno com a visão caleidoscópica de uma Joanna Newsom (Ys, é, você gostando ou não, um dos álbuns mais influentes da década passada nesse quesito). Annie Clark, a St. Vincent, se encaixa bem nessa descrição, e Strange Mercy, seu novo álbum, serve de apoio para tal sentença.

Strange Mercy é um disco de pop contemporâneo simplesmente bizarro. Bizarro em relação às próprias escolhas que Annie Clark faz. O disco, por si só, soa como um thriller psicológico denso e macabro. Mas o principal artifício que a St. Vincent é a ironia sonora, algo que muitos não vão perceber, e que expõe as frustrações da compositora. A incrível Cruel é o exemplo mais claro disso, onde uma batida disco se deixa levar por versos agonizantes e uma guitarra desajeitada. O propósito do disco é, portanto, retratar Annie Clark como uma típica heroína moderna.

O surrealismo do álbum vai da atmosfera um tanto nefasta quanto às letras crípticas (ouça Chloe In The Afternoon). E é nesse ambiente ambiente surreal que ela consegue ser incrivelmente sincera sobre sexo, amor e vida. O título lhe cai perfeitamente bem (Strange Mercy é algo como “estranha misericórdia”, em português), porque o álbum soa como uma retratação entre o que ela é (“I had good timnes with some bad guys”, ela canta em “Cheerleader”) e o que ela quer ser (um projeto de mulher moderna, “Me abra toda, senhor cirurgião”, ela canta em “Surgeon”). Strange Mercy é até certo ponto uma piada interna, e não há problema algum nisso.

O disco tem lá seus limites. Embora tudo o que foi dito vá encantar muita gente, St. Vincent não consegue se libertar do estigma de toda compositora moderna que quer soar como uma versão mais badass e confusa do que a Liz Phair nos momentos mais felizes de Exile In Guyville (contraditório, não?): o inevitável choque de realidades e expectativas (o mesmo mal que também acomete o novo do Girls, só que em um nível mais adulto) que nem sempre encontram solução e acabam por soar como um filme PG-13 editado para crianças (já viu algo assim?).

O esforço, porém, é válido. Embora Strange Mercy seja reconhecido por seus contos às vezes adultos porém maquiados, o álbum me diverte mais quando esqueço de tudo isso e eu passo a enxergar Annie Clark como a heroína geek que cria trilhas sonoras para sonhos pervertidos e descontrolados. Strange Mercy é um dos discos mais acidentalmente bizarros do ano, e ela nem sabe disso.

Nota: 8,1/10