Escapismo

Lorde, “Perfect Places”

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Não é segredo algum — nem para mim ou mesmo para os outros — que não escuto mais música como fazia antigamente. Isso não significa que, de vez em quando, eu não possa escrever sobre o que mexe comigo. Por isso, aquele post aberto e confessional — portanto, adolescente — sobre Melodrama. Dia desses, ainda falo de como aquele texto gerou uma reviravolta no meu mundinho.

Mesmo assim, aquela página de diário escancarada e rasgada não tratou de tudo que eu havia de falar sobre o disco. Na verdade, foi mais um tratado sobre mim, minhas amizades e solidão do que propriamente algo sobre a música. Ou, talvez, eu esteja errado: a única forma de discutir música, verdadeiramente, é falar de si mesmo.

“Perfect Places” fecha Melodrama num tom evidentemente escapista. Melodrama, como eu disse milhões de vezes, é sobre entrar na vida adulta. Existem centenas de milhares de discos pop sobre isso. É batido. Talvez seja até possível dizer que isso é clichê. Mas algo igualmente lugar-comum precisa ser dito para rebater isso (clichês, ironicamente, são rebatidos melhor por outros clichês): Cada voz é divina. É individual. Personalíssima. Lorde trabalha aqui como narradora do mundo. Desbravadora.

De tão desbravadora que é essa moça fez o clipe mais óbvio para a melhor canção do ano. Aqui, ela visita lugares paradisíacos que são muito parecidos com o que ela mencionou numa entrevista, mais cedo este ano, no Jimmy Fallon. Um vídeo terrivelmente óbvio.

Eu estava já com as pedras nas mãos quando lembrei do que Lorde, ela mesma, tinha escrito sobre o disco que ela criou. Numa espécie de laboratório em que artistas podem discorrer, livre e humildemente, sobre suas obras, Lorde escreveu algo sobre Melodrama que se encaixa, também, em qualquer outra relação tortuosa existente entre autor e obra:

The record I ended up making surprised me, I think. It’s rich and lush, technicolour. There’s joy to it, and pain. I’m struck by how sensory it is. In some ways it’s a celebration of the senses, a devotional you can feel all this, and stay standing!

De repente, está tudo perdoado.

Três atos, mil palavras

Lorde
Melodrama
8.5/10

Dia desses, eu estava pensando em como falar de arte. Em como falamos de discos, filmes, canções, livros e tudo mais que deve movimentar a nossa alma. Em como nós, às vezes, usamos hipérboles ridículas para falar das coisas mais simples que nos fazem sentir algo, qualquer coisa, na flor da pele. Às vezes o impulso é muito grande e acabamos escrevendo tratados desnecessários sobre obras que, no fundo, não significam tanto assim para você. E esse é um marco importante para o olhar (e ouvidos) de quem escreve sobre e aprecia o que se convencionou de chamar de arte: o que importa numa obra importa, necessariamente, para você. Para o seu mundo, suas referências, seu lugar. Por favor, não confunda isso com solipsismo. É que a arte resplandece sempre numa morada para quem lida com ela.

A arte cria, para quem se importa com ela e com o mundo, um lar a ser habitado.

Desculpe, esse texto vai ser um pouco mais intimista. Um verdadeiro balde de água fria.

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A perfeição é somente divina

Alguns meses atrás, escrevi como, em “Green Light”, Lorde parecia ter encerrado um ciclo da narradora que conta todo tipo de história sobre a vida adolescente. De como ela havia partido de uma temática universal — a agonia da existência, do subúrbio com seu silêncio ensurdecedor e tudo mais que faz a vida pacata nem tão pacata assim — e ido parar num redemoinho de sentimentos. Todos os sentimentos do mundo estavam presentes, ali, naquela canção.

Percebo, com “Perfect Places”, que posso ter errado, mesmo que somente um pouco, a mão. “I’m 19 and I’m on fire”, ela diz, tomando para si todas as dores do mundo e ainda apostando na catarse. É quase como se ela tivesse encontrado um meio termo nisso tudo: ela transforma as dores da vida de todos, ainda que de maneira universal, e as canaliza na música. “Let’s go to perfect places”.

O escapismo pode parecer fugaz, mas é importante também saber que “Perfect Places” supostamente (pela listagem original que ela divulgou) encerra Melodrama, o novo disco. Em entrevistas, ela tem admitido que o novo álbum é, na verdade, uma trilha sonora para uma festa e uma noite desregrada. O simbolismo é perfeito, eu preciso dizer: Lorde termina Melodrama tentando encontrar lugares perfeitos, um escapismo tão clichê quanto previsível. É profundamente humano entretanto.

É como ela diz no final disso tudo: “What the fuck are perfect places anyway?” Ela não parece estar, minimamente, interessada em responder.