Um diagnóstico breve porém nada simples:

Há, antes de tudo, na blogosfera (ou o que restou dela ultimamente) duas formas de falar de música: uma que ignora todo o espectro que uma canção ou um disco contém que modifica o mundo em que vive e convive, em que se instaura, tendo, assim, um resultado naturalístico, espirituoso, e outra que somente se respalda no tal resultado naturalístico que existe no mundo, criando uma confusão institucionalizada (ou, ainda, às vezes, alimentando-se de tal confusão) que vive de falar de contexto social e coletividade de uma dada obra. São as pessoas que escrevem resenhas quase que por uma obrigação mecanicista e nada mais. Não detém paixão e por isso separam as coisas quando as deveria unir.

A segunda forma de ver o mundo destrincha essa relação e é a que vê somente a imagem e se deixa ser enganada (e eu odeio citar os pós-modernos, mas vamos lá) pela iconofagia que se referencia a cada dia mais pelo nada e pelo vazio, um projeto em andamento cada vez mais viral. A crítica é isto: hipertextos (porque não deixam de ser textos, simples textos que não alçam voos maiores por preguiça) que referenciam a obras que referenciam a outras obras que…. E assim vai.

Não digo que estou imune a este pensamento, mas tento esquivar desse tipo de retórica e de conduta. É por este exame de consciência que se percebe o engano e o erro.

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2014

Atualizei a playlist do Spotify com as minhas canções favoritas do ano até agora.

Há algumas surpresas aqui agora, canções de discos que eu sinceramente não demonstrei muito interesse originalmente, como Broken Twin e Lust For Youth (“Armida” é uma das canções do ano).

Vi no Tumblr ontem. É de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. Uma pessoa que respeito muito reblogou ontem no site em questão, e, prontamente, rebloguei também. Não tive como esconder de eu mesmo um riso involuntário, como se a maior das ironias tivesse me atingido. Você transformou ódio em “sabedoria”, porém, Danilo.

Um dos principais problemas que eu percebo quando, pelo menos algumas vezes, paro para pensar nas resenhas da Pitchfork e o formato delas é que as notas numéricas tão exatas e assépticas que saltam da tela direto aos olhos (8.8! 10! 5.0! 7.9!), querendo ou não, involuntariamente, tentam tratar de história do pop de maneira infantil e linear. Por exemplo: a resenha desta semana para Nightclubbing, álbum marco de Grace Jones. Um 9.0. O problema de uma asserção desta é óbvio: uma nota desta recoloca e faz praticamente uma revisão do lugar, antes bem definido, deste disco na década de oitenta. Agora, fica a questão: Shields do Grizzly Bear é infinitamente melhor que este disco? Pois é isto que uma escala numérica deste tipo propõe a todos.

No primeiro episódio de Daria (série animada da MTV dos anos noventa), se não me engano, a garota que dá nome à série pergunta para Jane: “Por que você não acerta todas as questões do teste de autoestima e se livra do curso?”. Jane diz: “Eu gosto de ter baixa autoestima. Faz com que eu me sinta especial.”

Eu entendo Daria e, principalmente, entendo Jane.