Uma nota rápida

Gosto de escrever, seja aqui ou em documentos ultrassecretos no Google Docs, porque a atividade evita que eu esqueça ou me perca em ruminações.

Comecei a especialização ontem, sábado, e tive aula o dia inteiro. Uma experiência memorável com certeza. Mas hoje, depois de tudo isso, eu me peguei pensando em algumas coisas que não devem ser esquecidas tão facilmente.

É que a questão da função e um conceito de Direito sempre serão questionamentos essenciais – os primeiros, digo – para mim. Dessa forma, não consigo evitar de pensar que a Academia não produz real conhecimento nesse estágio da vida. Talvez por isso acabe me afastando dela.

Deixe-me explicar – ou não.

Existe um comportamento quase protocolar na Academia. Algo de que o Direito, justamente por ser o Direito – um ente que é, ao mesmo tempo, ser que preenche a vida social e individual, portanto não-ignorável – participa de maneira destacada.

Não consigo parar de pensar que o planejamento grego para as faculdades tenha se perdido em algum lugar no tempo, tendo aí a gênese de um comportamento que deu vida a elites e que viu na vida acadêmica per se – a profusão de artigos, congressos, discussões infindáveis e protocolares, quase uma profissionalização da geração de conhecimento.

Buscar conhecimento por um outro viés senão si próprio é pragmatismo, o que leva a consequências horripilantes – até, digamos, a destruição do próprio conceito de honestidade e prostituição intelectual.

A simplificação da vida, digo.

Entretanto, percebo que a Academia cria um próprio sistema de retroalimentação de egos – e isso não deveria ser novidade para ninguém. O que acaba sendo o contrário de um comportamento honesto consigo próprio e com os outros.

É pouco para gerar um relatório conclusivo, mas é o suficiente para perceber que permanecer o mesmo, dentro dessas situações, demanda bastante resiliência.

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Acatamento

A palavra mais bonita que eu conheço é serendipidade –  a arte de encontrar sem procurar. É o que digo sobre “Catalyst” e, principalmente, Tess Roby.

Dito isso, nessa altura da vida, eu confio em tudo que a Italians Do It Better lança. Não tem como se decepcionar com isso aqui. O disco sai em abril pelo que parece.

A nostalgia não existe

Na internet, nesse mundo que não é bem um mundo, 1998 tem sido uma espécie de referência eterna este ano. O The Outline dedicou um post a evidenciar que discos importantes fazem aniversário em 2018, bem como alguns eventos.

Lembro, sem querer, de uma coluna do Nitsuh Abebe que fala da nostalgia que não é bem nostalgia. É uma falsidade do caramba usando outras palavras:

One important reason for the general surge is a burst of actual music-world nostalgia– or, rather, new nostalgia, i.e., nostalgia for different things than the things we were being nostalgic about a minute ago. (We’ve already spent long enough being nostalgic about those things that they’re just the regular old things we’re into currently– nostalgia is complicated.) We are, after all, toward the beginning of a new decade, and every last citizen of this country has been trained to conceive of the history of style in single-decade blocks. Plus, there’s the official theory wherein trends repeat themselves every 20 years, a claim you can always make by picking the right examples. So right on schedule, the last decade’s nods to the 80s, its fast fashion and ersatz glitz and over-photographed parties, are giving way to rangy grunge revivalists, flannel workwear, and hints of slacker eye-rolling.

O mais importante é que, de qualquer forma, isto foi escrito há sete anos.

Uma ideia fixa

Já faz algum tempo desde que decidi que quero escrever um livro ou, ao menos, um conto simples. Decidi que seria algo rápido – um ebook a ser vendido na loja digital da Amazon por exemplo.

Não é só a falta de organização do meu tempo que faz com que a procrastinação atinja níveis alarmantes. É a legítima – confie em mim por favor – falta de ideias em relação ao que propriamente escrever. Uma falta de confiança ainda.

Existe um medo paralisante em decidir o que escrever. Talvez não queira admitir isso, mas existe algo de assustador em ter a criatividade sugada não sei, exatamente, pelo quê.

Começo a perceber que a falta de criatividade é a falta de amor pela vida. Ou, pelo menos, pela falta dela em si. Da vida.

Também não gostaria de admitir isso, mas escrever tem muito a ver com a apreender com a realidade e extrair dela uma narrativa. Mesmo que essa narrativa seja calcada no fantástico e no absurdo, tudo envolve mesmo que uma pequena centelha de realidade.

Sinto que a perda da conexão com real tem razões mais profundas. Talvez seja o trabalho que, enfim, distrai das coisas realmente importantes nesta vida. Talvez seja a negação.

Mas divago.

Percebo que escrever tem a ver com autoconhecimento. E também percebo que, quanto mais tento forçar o começo de uma história, ela escapa cada vez com mais força. É necessária uma concentração a qual me foge como num ato de autosabotagem.

Dia desses, li A Hora da Estrela. Agora entendo o amor da minha professora de Literatura do Ensino Médio por Clarice Lispector. Meu conhecimento a respeito de Lispector, antes restrito a um conjunto de contos, toma o ar de admiração. Escrever com tanta certeza e desprezo  e fascinação pelo mundo e pela morte – como num tributo ao psicologismo e ao infinito – é algo que fornece impulso à literatura.

Divago novamente.

Fiquei matutando, depois de refletir bastante acerca do que Clarice havia realizado magistralmente, sobre a sua própria ideia de escrita que, de tão vendida, tornou-se um clichê em si próprio: a ideia de que a escrita é a representação de um escape, da formação de um estado mental que não se materializa de outra forma.

A palavra escrita aceita tudo. E A Hora da Estrela, por mais que tenha aparentado a escrita acidental, é o resultado de uma ordenação na mente que poucos possuem. A ordem em meio à loucura. A morte no meio da vida – e não justamente o contrário.

Sim.

Percebo que escrevo este post praticando o desapego.

Ou talvez esteja ficando louco.

De qualquer forma, tudo isso dá a ideia de um livro ou um conto serve mais ao escritor do que a qualquer outra pessoa. E, talvez, somente por ser capaz de ser projetado à consciência de outra pessoa, ao leitor.

Pronto, já tenho um motivo para o livro ou o conto: a minha mente.


Um post antigo do Tumblr. Estou retornando as coisas para este blog. 

Simbólica

A escalada termina aí. No topo, voltamos a encontrar o princípio de identidade, que numa etapa do caminho havíamos abandonado, e que agora nos revela sua verdadeira índole de princípio metafísico, que não pode ser aplicado aos seres do mundo empírico senão pela mediação das analogias, nem pode, exceto por essa mesma mediação, ser conhecido senão como fórmula abstrata em que a mente, opaca, nada mais reconhece além da imagem repetida de seu próprio modo de operar.

Reconquistando assim o sentido metafísico da lógica analítica, compreendemos que, abaixo do plano da universalidade pura, ela só serve para o conhecimento da realidade quando mediada pela lógica dialética (da qual o método científico não é senão um  desenvolvimento), e que a lógica dialética, por sua vez, perde todo o sentido quando considerada de maneira literal, direta, e sem a  mediação do simbolismo. Fora destas precauções, caímos no conseqüencialismo abstrato da filosofia racionalista clássica e nos sujeitamos a todas as objeções kantianas, que não são válidas para uma metafísica fundada na dialética simbólica.

Tendo encontrado o princípio superior que organiza os vários planos de uma sequência analógica, parece que nada mais há a conhecer nesse domínio. Podemos ter aí a ilusão de ter alcançado, de uma vez, a verdade suprema.

Na prática, porém, quanto mais no aproximamos de um princípio universal, mais vão ficando para trás e cada vez mais longe as realidades concretas cuja explicação buscávamos. E, perto do topo, às vezes parecemos ter perdido de vista o propósito da viagem. O momento do reencontro passa, e nada nos resta nas mãos senão o enunciado abstrato e sem vida de um princípio lógico, que é a recordação melancólica de uma universalidade perdida. É preciso, portanto, descer novamente do princípio às suas manifestações particulares, e depois subir de novo, e assim por diante. De modo que a alternância sim-não, verdade-erro, que constitui para nós o início da investigação, é finalmente substituída, num giro de noventa graus, pela alternância alto-baixo, universal-particular. Passamos da oscilação horizontal para a vertical. E é justamente o despertar da capacidade de realizar em modo constante a subida e a descida, que
constitui o objetivo de toda educação espiritual, sem a qual a perspectiva que nos é oferecida pela dialética simbólica se torna para nós apenas miragem. Compreendemos assim quanto é vão e pueril todo ensino da filosofia que permaneça no nível da pura discussão e não inclua uma disciplina da alma. Que a filosofia tenha descido da
condição de uma ascese interior para a de um mero confronto de doutrinas num ambiente de tagarelice mundana, é um mal do qual o Ocidente, talvez, jamais poderá recuperar-se.

Parte final da apostila de Dialética Simbólica de Olavo de Carvalho.