Tarde

HAIM
Something to Tell You
6.5/10

As tardes de inverno, pelo menos as daqui, possuem uma característica interessante. O contraste do sol com o solo é de uma medida perfeita. A luz é incandescente. A temperatura é perfeita. E é possível andar na rua sem esforço algum. O sol te ajuda. A sombra também. Isso, claro, dura somente alguns meses. Até que você começa a se acostumar com essa sensação de dia ameno. Aí tudo volta para aquele estado infernal. Nada é perfeito mesmo por aqui.


Eu tenho uma teoria sobre como as pessoas reagem à nostalgia. Ela tem a ver com como as pessoas lidam com artistas, por exemplo, como Ariel Pink. Lembro de ter pensado, quando ouvi “Round And Round” pela primeira vez, que nada que eu sabia sobre nostalgia se aplicava àquela canção. Pelo menos não naquela época. É que Ariel Pink e sua trupe não faziam, simplesmente, referência a um tempo específico, a uma época específica.

O que acontece nessa canção, na verdade, bem como em quase toda a discografia desse homem, é um jogo de ilusões. Há a impressão, a todo momento, de que Ariel Pink reverencia algum momento no passado quando, em verdade, ele cria algo novo. É um espelho. É a música de um hermeneuta. “Round And Round” olha para a história e, no final, olha para si mesma. É um círculo. Quando se acredita que Pink está olhando para o passado, ele, realmente, olha para si mesmo.


A melhor música tem se alimentado dessa ideia — desse círculo — ultimamente. O disco novo das HAIM, Something to Tell You, parece acreditar nessa ideia. Há quem compare o trio de irmãs com qualquer banda pop retirada dos anos setenta — particularmente, as incessantes e cansativas referências ao que o Fleetwood Mac costumava fazer na sua fase menos depressiva.

O disco novo não é páreo para o que elas mesmas fizeram em 2013 com Days Are Gone, o primeiro disco. Naquela época, lançaram uma obra cheia de pop dono de si, determinado. Era quase asséptico na fórmula — tal qual, digamos, um Fleetwood Mac mesmo — mas do qual gostei. Something to Tell You é mais arraigado numa narrativa que as irmãs querem contar dessa vez — o nome do disco não veio por acaso. Tudo é mais básico aqui.  “Right Now” tem um dos refrões mais cativantes que já fizeram. A versão do clipe dirigido por Paul Thomas Anderson, um mestre da arte de tirar leite de pedra, melhor que a versão do álbum. Justamente, talvez, por ser mais intimista e rústica. Lembro de ter mencionado isso quando primeiro escrevi sobre o clipe e agora tenho mais certeza ainda dessas minhas palavras.

“Polido” ainda é uma boa palavra para descrever muito do que se ouve nesse disco. Aprendi, desde que as HAIM primeiro apareceram, é que nada disso realmente interfere na minha relação com a música delas. O que deveria importar muito mais é a forma de se escutar música. Seja ela polida ou não, a impressão que tenho de Something to Tell You é que esse é um disco de um trio que sabe muito bem fazer uma performance. Eis um disco de interpretações do southern rock e de country e de pop arraigado numa tradição, ou pelo menos numa ideia compartilhada de tradição por esse trio de irmãs.

Isso quer dizer que eu não encontrei uma grande razão de existência para esse disco. Ele é um disco, digamos, de estações. Que diz algo muito específico com todas essas canções sobre amores passageiros, saudade e perdição. E que pode inclusive esvaziar-se de significado assim que o inverno acabar. Por enquanto, porém, ele aquece. E “Kept Me Crying” parece ser a coisa mais bonita que já ouvi.

Por enquanto. Vai saber.

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Três atos, mil palavras

Lorde
Melodrama
8.5/10

Dia desses, eu estava pensando em como falar de arte. Em como falamos de discos, filmes, canções, livros e tudo mais que deve movimentar a nossa alma. Em como nós, às vezes, usamos hipérboles ridículas para falar das coisas mais simples que nos fazem sentir algo, qualquer coisa, na flor da pele. Às vezes o impulso é muito grande e acabamos escrevendo tratados desnecessários sobre obras que, no fundo, não significam tanto assim para você. E esse é um marco importante para o olhar (e ouvidos) de quem escreve sobre e aprecia o que se convencionou de chamar de arte: o que importa numa obra importa, necessariamente, para você. Para o seu mundo, suas referências, seu lugar. Por favor, não confunda isso com solipsismo. É que a arte resplandece sempre numa morada para quem lida com ela.

A arte cria, para quem se importa com ela e com o mundo, um lar a ser habitado.

Desculpe, esse texto vai ser um pouco mais intimista. Um verdadeiro balde de água fria.

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The xx | “Brave for You” (Marfa Demo)

Ainda não escrevi muito esse ano sobre o The xx e, principalmente, I See You, um dos meus discos favoritos de 2017. Isso não impede, entretanto, que eu aponte que esse vídeo de uma canção extraída da versão de luxo do álbum seja uma das coisas mais singelas que a banda já fez.

Tudo indica que isso seja da mesma época em que eles gravaram o clipe de “On Hold“. Tudo aqui, dessa vez, é mais humano. Ainda bem.

Temer e Gilmar

Percebi, há algum tempo, que esse blog pode servir a vários propósitos: pode ser uma moradia de meus textos mais intimistas e, da mesma forma, pode servir à divulgação de textos mais analíticos e impessoais. Pode ser o depositório de análises breves, bem como de bobagens — tanto é que existe uma categoria justamente para esse tipo de coisa aqui.

Dito isso, meu chefe de estágio pediu, uma vez que estava revoltado com tudo e com todos, e principalmente Michel Temer e Gilmar Mendes diante dos acontecimentos mais recentes noticiados Brasil afora, que eu fizesse uma análise do que seria cabível contra os dois. Foi um esboço de um parecer. Furado, bem furado, mas eu me diverti — e ri bastante — enquanto escrevia numa noite dessas recentemente.

O link está abaixo. Ria comigo.

Parecer – Michel Temer e Gilmar Mendes

Algo para os seletos

Eu vivo vasculhando o Atlas Obscura desejando, de longe, as viagens que eu pretendo fazer um dia. O site, ainda bem, tem uma coleção de textos variando dos mais bizarros aos mais comuns — dependendo do que você considera como comum. Esse texto aqui sobre telepatia, cachorros e União Soviética, bem como paranoia cientificista e comunistas é uma das coisas mais doidas que vejo em algum tempo.

Beleza

January Sun, o EP de estreia de Kedr Livanskiy, foi uma das coisas mais bonitas e agradáveis de 2016. Um misto de estranheza e beleza clássica (tal como quase tudo que sai da demoníaca Rússia hoje em dia), aquelas canções aqueceram um inverno (eterno) que perdurou no ano passado.

O inverno esse ano vai ser mais rigoroso, disso estou certo. É com essa vontade de acolhimento que eu vou escutar o primeiro disco de Livanskiy. “Ariadna” é a primeira faixa do disco que se tem notícia.

Obrigado, 2017.

Eu queria estar lá

O New Yorker fez um retrato apaixonante do que foi Carly Rae Jepsen acompanhada de uma orquestra, nesse final de semana, em Toronto.

Em suma: eu queria estar lá.

The orchestra began, suddenly, in a way that resembled star formation—dense clouds of melody floating in suspension and then, under piccolo flurries and timpani rolls, fusing into one. A sax line emerged, neon with yearning, and Jepsen came out to sing “Run Away with Me,” unprotected by reverb and curling her voice tight around the notes. She glittered in her peculiar, brilliant, half vacant way. Jepsen is, for a pop star, a remarkably unassuming presence—she always seems like a conduit for something, rather than the thing itself—and though she managed the evening’s performance appropriately, like a diva, with a gown change and Streisand gestures, it seemed to me as if she could’ve been singing in front of her bedroom mirror, or in a dream. It just so happened that she was in front of a full symphony orchestra, facing a crowd of people who would eventually jump to their feet and sing along and dance like they, too, were alone in their rooms. The orchestra was heartbreaking, restrained by the simplicity of the songwriting and yet inherently hyperbolic. The violins took up the moments where, normally, on her albums, you’d hear Jepsen ad-libbing with interjections. Instead of a “Hey!” their bows would strike, like an epiphany, a burst of sweetness outside the realm of words.

Colagem

Depois de tanto tempo, é possível conceber a ideia de que já existe algo de muito comum que rondeia a música do Beach House. Você já sabe o que esperar. O que vai acontecer. O que eles farão da próxima vez.

Antigamente, eu via isso como um sinal de preocupação — com a ideia (estúpida, agora percebo) da existência de algum tipo de diminishing returns. Entretanto, tudo isso que o duo faz é sinal de maturidade. Algo que eu também percebi com o tempo.

“Chariot” não é nada de novo e, justamente por isso, oferece o melhor que esse Beach House já está acostumado a fazer: de tão particular que é, o duo faz da música um lar, uma morada. Algo com que se pode confiar e confidenciar. O clipe é um reflexo disso: uma colagem de momentos familiares que pretendem refletir algo muito maior e mais intimista.

Isso é raro de se ver.